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22 de agosto de 2019 por Luze Azevedo

Bem-vindo à Desembréia

Bem-vindo à Desembréia
22 de agosto de 2019 por Luze Azevedo

Desembréia e Segue

A vida em São Paulo não pede licença. Ela atropela. É pressa grudada no cansaço, temperada com uma esperança teimosa que insiste em não morrer. Eu já tinha me acostumado a esse ritmo depois de tantas tentativas por aqui. Vim de Uberlândia com a mala cheia de planos e fui pulando de galho em galho: lavei prato, limpei carro, fritei hambúrguer. Aprendi cedo que a cidade cobra caro de quem insiste. E, mesmo assim, há dias em que ela resolve testar até quem já criou casca.

Naquele dia, era minha mãe quem precisava de mim. Consulta médica marcada, relógio correndo mais rápido que a gente e São Paulo fazendo o que sabe fazer melhor: travar. Ônibus abarrotados, metrô parecendo lata de sardinha. Não teve jeito, chamei um carro de aplicativo. Foi assim que Antônio Ivo entrou na história.

Logo de cara, deu pra perceber que ele não era só mais um motorista engolido pela rotina. Ivo tinha conversa solta, dessas que nascem fácil, como papo de mesa de bar ~ só que sem a cerveja, porque o horário ainda era cedo demais pra isso.

O carro avançava a passos de tartaruga no trânsito infernal, e eu já me preparava mentalmente para o concerto habitual de buzinas, palavrões e nervos à flor da pele. Mas Ivo seguia inteiro, quase sereno. Cada fechada que levava vinha acompanhada de um meio sorriso e de uma frase dita com calma, como quem reza baixinho para não perder a fé:

— Desembréia, meu amigo, e segue teu caminho.

E, naquele instante, pareceu que São Paulo, pela primeira vez no dia, resolveu ouvir.

A vida em São Paulo é como uma cebola: cheia de camadas ~ e, inevitavelmente, algumas vão te arrancar lágrimas.

Frei e.uBer

Primeiro eu ri. Minha mãe também. Mas, de algum jeito estranho ~ desses que a gente só entende depois ~ aquela frase ficou ecoando. Feito conselho que ninguém pediu, mas que chega no exato minuto em que precisava chegar.

Saí da consulta e segui a vida. Só que o tal do “desembréia” não me largou. Ele vinha comigo no metrô, aparecia na fila do mercado, soprava no vento que batia no rosto enquanto eu atravessava a cidade a pé. Comecei a desconfiar que eu tinha passado a vida inteira empacado, forçando fechaduras que nunca foram feitas pra mim. E, do nada, um desconhecido me entregava algo simples como quem diz bom-dia: solta. Segue.

E eu segui. Pelo menos até o dia em que tudo veio abaixo.

Um mês depois, fui preso.

Uma mulher foi assaltada no Largo da Batata, em Pinheiros. A descrição que ela deu batia com a minha cara. A foto mostrada a ela era a minha. Talvez tirada de alguma rede social, talvez de algum restaurante onde trabalhei. Vai saber. O fato é que, num piscar de olhos, minha vida virou poeira.

Fui apagado. Quem um dia me chamou de amigo deletou meu nome sem peso na consciência. Parte da família se afastou como quem tira um móvel velho da sala. E ali fiquei: sozinho. Mas foi nessa solidão que fiz amizade com Deus.

Foram 581 dias ~ ou 83 semanas, talvez 13.944 horas ~ até que a verdade resolvesse aparecer: eu não era culpado. Nunca fui. Só me tornei refém do tempo que a justiça levou pra entender o que eu sempre soube.

E foi naquela cela fria, sem promessa nenhuma, que o “desembréia” começou a ganhar corpo. Nas páginas da Bíblia lidas como quem procura um rumo, nas conversas sussurradas entre os presos, no silêncio grosso das madrugadas, quando a única pergunta possível era: por quê?

Talvez porque alguns caminhos só se revelem quando já não existe mais caminho nenhum.

Não guardei rancor. Não alimentei ódio. Aprendi a rezar. E em cada oração ~ das que fiz e ainda faço ~ peço misericórdia, peço calma pros corações, peço que quem cruzou meu destino encontre paz e siga o próprio rumo.

E quem sabe, um dia, também embarque na Desembréia de Deus, pegando carona com o Frei e.uBer.

Foi ali que entendi: talvez a vida não seja sobre abrir portas, mas sobre parar de insistir nas que nunca vão abrir.

Quando saí da prisão, voltei pra rua com outro olhar. Já não era só dirigir. Era escutar. Meu carro deixou de ser apenas um meio de transporte e virou um confessionário sem julgamento. Um lugar onde histórias se misturam com dores, esperanças e silêncios. Eu falo, mas não imponho. Escuto, sem pressa. E, aos poucos, fui aprendendo a traduzir o mundo. E a ajudar quem também anda procurando respostas.

Assim nasceu a Desembréia de Deus. Não como ideia planejada, mas como um sussurro da própria vida.

Porque, no fim das contas, é só isso que a gente precisa: desembréiar… e seguir.

Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!

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