Ela entrou no carro em Santana com aquele ar de quem já chega com o roteiro da vida escrito e aprovado ~ e eu, que vivo rodando essa cidade como um padre reza o terço, identifiquei de longe o enredo.
Na mão direita, um dogão que é quase uma obra de arte; na esquerda, a latinha de refri, o combustível dos heróis. A cara? Uma novela das seis que o diretor esqueceu de cortar. Como a galera lá de Minas diz: é eita atrás de vixe ~ e eu só esperando o próximo capítulo.
— Saí do hospital agora ~ disse ela, ajeitando o copo no porta-copos. — Preciso voltar urgente.
— Itinerário que eu evito ~ respondi, engatando a primeira. — Pressa e São Paulo não dão samba. Mas o passageiro é o senhor, ou a senhora?
— O namorado. Tá lá, com a perna quebrada.
— Moto? Canela no futebol de domingo?
— Ciúme. Daqueles que a gente jura que não sente, até ver a mão alheia onde não devia. A minha, nesse caso, virou juiz. Apitou pênalti, cobrou falta, aplicou cartão vermelho. Ele virou estatística ortopédica.
— Márcia Roberta ~ apresentou-se, como se o nome bastasse para explicar o temporal.
— Dois nomes, uma alma só? ~ arrisquei.
— Duas personalidades, um CPF. A Receita Federal que se vire. Márcia é risada que estoura, abraço que puxa pra dança. Roberta… bem, Roberta chega de salto alto e sentença pronta. Não engole desaforo. Se você traz má educação, ela devolve com juros e correção monetária. Hoje foi a Roberta quem escalou.
Rodei pela Marginal Tietê rumo ao Nipo-Brasileiro. A noite transformava o asfalto em rio de luz cansada, caminho de quem ainda tem contas a acertar com o mundo. Já dormi olhando muro de concreto, já acordei sob teto de grade. Aprendi que liberdade não é lugar: é o jeito de respirar. E eu respiro no volante.
Do rádio, como se o acaso tivesse senso de humor, escorreu “To Be With You”, do Mr. Big. Ela parou a mordida no dog. Quase tombou o refri. Olhou pelo retrovisor.
— Frei… acho que exagerei. Tô arrependida. Até a música tá contra mim.
Foi minha deixa. Motorista de aplicativo é psicólogo sem CRP, padre sem batina, conselheiro pago por quilômetro.
Respirei e mandei:
— Filha ~ suspirei, ajustando o espelho. — Tenta ser mais Márcia e menos Roberta. Senão, daqui a pouco, não sobra namorado, nem amigo… e nem cachorro-quente vai querer ficar na tua mão.
Ela mordeu o dog com a fúria de quem decifra o universo. Uma chuva de batata-palha caiu solene no colo.
— Vou refletir no sermão, Frei. Mas se ele repetir a dose… aí eu viro a Roberta turbo. E aí, nem São Jorge de motoca me segura.
Chegamos;
As luminárias piscavam um amarelo preguiçoso. O hospital respirava no fim da rua, a cidade suando aquele calor que só gera cansaço e confusão. Ela abriu a porta, desceu sem estardalhaço.
Ela desceu.
Fiquei olhando. Um homem sábio, penso eu, mora perto de hospital. Ela, por outro lado, carrega a cidade inteira no bolso, pronta para abrigar mil versões de si mesma.
Fiquei olhando. Um homem sábio, penso eu, mora perto de hospital. Ela, por outro lado, carrega a cidade inteira no bolso, pronta para abrigar mil versões de si mesma.
Segui viagem.
A noite é grávida de histórias. Sempre tem alguém precisando de confessionário móvel, de um refri morno no banco de trás, de pedir à vida o que nem ela mesma entende.
A noite é grávida de histórias. Sempre tem alguém precisando de confessionário móvel, de um refri morno no banco de trás, de pedir à vida o que nem ela mesma entende.
Só tenho uma certeza absoluta nesse ofício: o amor é uma beleza, uma graça… mas o próximo corno já tá na esquina, fazendo sinal pra eu parar.
