desembréia de deus
  • A Desembréia
    • no Volante
    • na Estrada
    • na Paisagem
      • Acontece!
      • Cidade Revelada
      • De Boca Cheia
      • Feira Livre, Feira Viva
      • Rastro & Rabisco
      • Solta o Som, SP!
      • Verde que te quero viva
      • Você Sabia?
    • em Números
    • no Pensamento
  • Blog
  • Frei e-Uber

Carona de Palavras

Tem namorado sortudo, mora perto do hospital.

No meio da conversa, como se alguém lá no alto tivesse humor, começa a tocar “To Be With You”, Mr. Big. Ela pausa o dog, quase vira o refri no banco, olha pra mim e solta:

~ Frei, acho que exagerei. Tô arrependida. Até a música está contra mim.

Carona de Palavras

… o namorado estava lá, de perna quebrada. E não, não foi acidente de moto, nem canelada maldosa no futebol de domingo, muito menos o destino pregando uma peça. Então a Desembréia precisa voar!

~ Márcia entrou no carro com um cachorro-quente numa mão e um coração partido na outra [e eu, Frei.eUber, já sabia que aquela viagem renderia mais que corrida ~ renderia confissão] ~

Duas personalidades num corpo só. Ela se acha Bipolar, mas tem mais cara de TDI popularmente conhecida como dupla personalidade.

~ a cidade me ensinou que toda história começa com um portão fechando e um carro arrancando [e a dela começou num hospital, com um namorado de perna quebrada e uma certa Roberta que não perdoa traição] ~

~ naquele instante entre santana e a marginal, eu já podia sentir o gosto amargo do ciúme misturado com ketchup [e soube que a noite traria mais uma página no meu livro de memórias sobre rodas] ~

Tem namorado sortudo, mora perto do hospital.

Ela entrou no carro em Santana com aquele ar de quem já chega com o roteiro da vida escrito e aprovado ~ e eu, que vivo rodando essa cidade como um padre reza o terço, identifiquei de longe o enredo.

Na mão direita, um dogão que é quase uma obra de arte; na esquerda, a latinha de refri, o combustível dos heróis. A cara? Uma novela das seis que o diretor esqueceu de cortar. Como a galera lá de Minas diz: é eita atrás de vixe ~ e eu só esperando o próximo capítulo.

— Saí do hospital agora ~ disse ela, ajeitando o copo no porta-copos. — Preciso voltar urgente.
 
— Itinerário que eu evito ~ respondi, engatando a primeira. — Pressa e São Paulo não dão samba. Mas o passageiro é o senhor, ou a senhora?
 
— O namorado. Tá lá, com a perna quebrada.
 
— Moto? Canela no futebol de domingo?
 
— Ciúme. Daqueles que a gente jura que não sente, até ver a mão alheia onde não devia. A minha, nesse caso, virou juiz. Apitou pênalti, cobrou falta, aplicou cartão vermelho. Ele virou estatística ortopédica.
 
— Márcia Roberta ~ apresentou-se, como se o nome bastasse para explicar o temporal.
 
— Dois nomes, uma alma só? ~ arrisquei.
 
— Duas personalidades, um CPF. A Receita Federal que se vire. Márcia é risada que estoura, abraço que puxa pra dança. Roberta… bem, Roberta chega de salto alto e sentença pronta. Não engole desaforo. Se você traz má educação, ela devolve com juros e correção monetária. Hoje foi a Roberta quem escalou.
 
Rodei pela Marginal Tietê rumo ao Nipo-Brasileiro. A noite transformava o asfalto em rio de luz cansada, caminho de quem ainda tem contas a acertar com o mundo. Já dormi olhando muro de concreto, já acordei sob teto de grade. Aprendi que liberdade não é lugar: é o jeito de respirar. E eu respiro no volante.
 
Do rádio, como se o acaso tivesse senso de humor, escorreu “To Be With You”, do Mr. Big. Ela parou a mordida no dog. Quase tombou o refri. Olhou pelo retrovisor.
 
— Frei… acho que exagerei. Tô arrependida. Até a música tá contra mim.
 
Foi minha deixa. Motorista de aplicativo é psicólogo sem CRP, padre sem batina, conselheiro pago por quilômetro.
 
Respirei e mandei: 
— Filha ~ suspirei, ajustando o espelho. — Tenta ser mais Márcia e menos Roberta. Senão, daqui a pouco, não sobra namorado, nem amigo… e nem cachorro-quente vai querer ficar na tua mão.
 
Ela mordeu o dog com a fúria de quem decifra o universo. Uma chuva de batata-palha caiu solene no colo.
 
— Vou refletir no sermão, Frei. Mas se ele repetir a dose… aí eu viro a Roberta turbo. E aí, nem São Jorge de motoca me segura.
 
Chegamos;
As luminárias piscavam um amarelo preguiçoso. O hospital respirava no fim da rua, a cidade suando aquele calor que só gera cansaço e confusão. Ela abriu a porta, desceu sem estardalhaço.
 
Ela desceu.
Fiquei olhando. Um homem sábio, penso eu, mora perto de hospital. Ela, por outro lado, carrega a cidade inteira no bolso, pronta para abrigar mil versões de si mesma.
 
Segui viagem.
A noite é grávida de histórias. Sempre tem alguém precisando de confessionário móvel, de um refri morno no banco de trás, de pedir à vida o que nem ela mesma entende.
 
Só tenho uma certeza absoluta nesse ofício: o amor é uma beleza, uma graça… mas o próximo corno já tá na esquina, fazendo sinal pra eu parar.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus

eco.das.letras WordPress Theme © Produzido by LuzeAZVDO

Facebook – Twitter – Instagram