em determinado momento do filme, Bart [Tye Sheridan] diz ao investigador vivido por John Leguizamo: “sistemas de crença são complicados.“
Curioso… eu não fui assistir a O Recepcionista [2020] por causa de crença alguma. Fui porque ainda acredito que existem filmes que nos pegam pela mão e nos levam sem pedir licença. Alguns nos conquistam pela história. Outros, pelos personagens.Ddirigido por Michael Cristofer e estrelado por Tye Sheridan, Ana de Armas, Helen Hunt e John Leguizamo, Este pertence, com rara elegância, aos dois mundos.
Bart é daqueles personagens que continuam morando na cabeça da gente muito depois que os créditos terminam. Recepcionista de um hotel, ele observa as pessoas com uma atenção quase cirúrgica, como quem tenta decifrar um idioma que todos parecem falar desde o berço, menos ele. Sua solidão, suas manias e sua inteligência compõem um personagem que desperta algo maior do que curiosidade. Despertam empatia.
Algumas pessoas passam a vida inteira cercadas de gente e, ainda assim, parecem assistir ao mundo do lado de fora da janela. Bart me lembrou um pouco disso. E talvez seja por esse motivo que sua presença incomode tanto quanto enternece.
Confesso, porém, que cheguei ao filme por outro motivo. ou melhor, por outra pessoa: Ana de Armas.
Desde que a vi em Bata Antes de Entrar, ela conquistou um lugar definitivo entre as atrizes que acompanho com prazer e moram no meu coração. Não apenas pela beleza, que seria a primeira distração dos olhos, mas pela delicadeza com que empresta humanidade às mulheres que interpreta. há atores que interpretam personagens. ela parece escutá-las antes de lhes dar voz.
descobrir O recepcionista seis anos depois de seu lançamento foi como encontrar um livro esquecido numa estante empoeirada. Ele não estava atrasado. Eu é que ainda não tinha chegado ao encontro.
O filme não vive de explosões, perseguições ou reviravoltas fabricadas para prender a atenção de quem já desaprendeu a esperar. Sua força mora justamente na atmosfera, nos silêncios, nos olhares que parecem esconder capítulos inteiros jamais escritos. É um suspense que prefere caminhar a correr. E talvez seja exatamente por isso que nos alcance.
Vivemos um tempo curioso. Alguns filmes parecem disputar nossa atenção aos gritos, como vendedores em liquidação nas feiras livres. O Recepcionista faz o contrário. fala baixo. Tão baixo que obriga o espectador a silenciar um pouco por dentro. E esse talvez seja o maior elogio que um filme possa receber.
Não escrevo estas linhas como quem distribui estrelas ou coleciona defeitos para sustentar uma crítica. Escrevo como alguém que ainda gosta de montar sua própria sala escura, apagar as luzes da casa e acreditar que o cinema pode oferecer muito mais do que entretenimento. Às vezes, ele nos faz companhia. Às vezes, nos entrega um espelho. outras, deixa apenas uma pergunta rondando a cabeça, muito depois que a tela escurece.
E é nesses momentos que o cinema realiza seus pequenos milagres. Faz a gente perceber que certos filmes não envelhecem. Ficam apenas esperando, com a paciência de quem conhece o tempo, o instante exato em que finalmente encontram seu espectador.
