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Carona de Palavras

O Resgate

se alguém me perguntasse, naquela manhã, qual seria a probabilidade de eu transportar quatro mulheres lindas, recuperar um celular perdido, ganhar uma excelente caixinha, consertar um pneu furado e ainda almoçar como um rei, eu responderia sem pensar:

— nenhuma.

a sorte, porém, adora contrariar motoristas de aplicativo.

Carona de Palavras

confesso que fiquei preocupado quando ouvi:

— moço… somos quatro mulheres. O senhor leva?

Minha imaginação respondeu antes de mim. Pensou em sequestro, pedido de resgate e manchete de jornal. A realidade, como quase sempre acontece nas melhores corridas, preferiu escrever um roteiro muito mais engraçado: quatro panteras, um celular fujão, uma gorjeta generosa e um peixe ao molho com purê de batatas para encerrar a sexta-feira.

Frei.eUber e as Panteras em Aceleração Máxima

dizem que toda boa história começa com um “era uma vez”. A minha começou depois de um pneu furado, uma manhã atravessada e uma pergunta que parecia completamente inocente:

— moço… o senhor leva?

Bastaram cinco palavras para transformar uma corrida comum numa daquelas ‘estórias’ em que aparecem quatro mulheres, um celular esquecido, uma inesperada missão de resgate e uma caixinha generosa, capaz de consertar o pneu que insistiu em furar justamente naquele dia e, de quebra, ainda patrocinar um peixe ao molho com purê de batatas. Nessas horas, a vida mostra que continua sendo uma roteirista muito mais criativa do que qualquer contador de estórias.

“moço… somos quatro mulheres. Estamos indo para VNCachoeirinha. o senhor leva?”

Eu adoro quando uma corrida começa com “moço”. Automaticamente, alguma coisa se desprende do meu corpo e leva embora uns duzentos anos de idade. E, convenhamos, o alívio na coluna também agradece.

A primeira resposta que me passou pela cabeça foi: “se não for um sequestro, levo!”

Mas a prudência venceu o humor. Hoje em dia, uma piada mal interpretada viaja mais rápido que o carro. A plataforma não costuma rir junto e, dependendo da leitura, quem acaba pagando a conta é o motorista. Então guardei a graça para depois.

E não é que eram mesmo quatro moças? Me senti o “Charlie e as Angels“. Uma mais bonita que a outra.

Assim que todas embarcaram, não resisti:

— Só preciso avisar uma coisa. Minha mamãe tem 90 anos e não tem dinheiro para pagar resgate. Então, se a ideia era me sequestrar, acho melhor desistirmos antes de começar a viagem…

O carro virou uma gargalhada.

A passageira do banco da frente, eleita pelas amigas como a mais bonita antes mesmo de fechar a porta, atravessou quase toda a viagem em silêncio. Só perto do destino ouvi sua voz pela primeira vez. Curiosamente, se você me perguntar agora qual era o timbre dela, não saberei responder. Algumas pessoas chegam primeiro pelo olhar; a voz vem depois.

As três do banco de trás já haviam adotado o motorista como parte da conversa.

Olhei pelo retrovisor e arrisquei:

— Vocês são do RH e estão indo demitir alguém na loja? Se trata de um bota-fora?

A resposta veio acompanhada de risadas.

— Imagina! a sexta-feira de todo mundo está garantida.

Explicaram que trabalhavam com visual merchandising. Estavam indo trocar a coleção, inspecionar a loja, estoque e sugerir um novo layout para as vitrines.

Deixei as quatro em segurança e segui o dia.

Alguns minutos depois, o telefone tocou.

Do outro lado da linha, uma voz delicada perguntou se, por acaso, eu havia encontrado um celular. Uma delas sentiu falta do aparelho e lembrou que a última vez em que o usara havia sido durante a viagem.

E não é que estava mesmo comigo?

O celular havia escorregado para o assoalho, logo atrás do banco do motorista, num daqueles cantinhos onde os olhos dificilmente alcançam. No desembarque, entre risadas, bolsas, despedidas e a pressa natural de quem chega ao destino, ninguém percebeu que ele havia ficado para trás.

Ela só conseguiu falar comigo porque, no banco de trás, havia encontrado meus contatos na pequena propaganda do Frei.eUber. Às vezes, a melhor publicidade não serve para conquistar novos passageiros. Serve para reencontrar os antigos.

Voltei.

Entreguei o celular.

E recebi uma caixinha daquelas que fazem a gente acreditar que honestidade continua rendendo bons juros.

O dinheiro chegou em boa hora.

Pagou o conserto do pneu traseiro, que havia resolvido furar justamente naquele dia, e ainda patrocinou um almoço digno de uma sexta-feira: um belo peixe ao molho, acompanhado de um purê de batatas capaz de restaurar até o humor de quem passou a manhã inteira desviando de buracos.

No fim das contas, ninguém me sequestrou.

Ninguém foi demitido.

Um celular voltou para a dona.

Um pneu voltou a respirar.

E eu voltei para casa com mais uma certeza: algumas corridas terminam quando o passageiro desce. Outras só acabam depois que a honestidade faz o retorno… e ainda deixa a gorjeta pagar o almoço.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
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