“moço… somos quatro mulheres. Estamos indo para VNCachoeirinha. o senhor leva?”
Eu adoro quando uma corrida começa com “moço”. Automaticamente, alguma coisa se desprende do meu corpo e leva embora uns duzentos anos de idade. E, convenhamos, o alívio na coluna também agradece.
A primeira resposta que me passou pela cabeça foi: “se não for um sequestro, levo!”
Mas a prudência venceu o humor. Hoje em dia, uma piada mal interpretada viaja mais rápido que o carro. A plataforma não costuma rir junto e, dependendo da leitura, quem acaba pagando a conta é o motorista. Então guardei a graça para depois.
E não é que eram mesmo quatro moças? Me senti o “Charlie e as Angels“. Uma mais bonita que a outra.
Assim que todas embarcaram, não resisti:
— Só preciso avisar uma coisa. Minha mamãe tem 90 anos e não tem dinheiro para pagar resgate. Então, se a ideia era me sequestrar, acho melhor desistirmos antes de começar a viagem…
O carro virou uma gargalhada.
A passageira do banco da frente, eleita pelas amigas como a mais bonita antes mesmo de fechar a porta, atravessou quase toda a viagem em silêncio. Só perto do destino ouvi sua voz pela primeira vez. Curiosamente, se você me perguntar agora qual era o timbre dela, não saberei responder. Algumas pessoas chegam primeiro pelo olhar; a voz vem depois.
As três do banco de trás já haviam adotado o motorista como parte da conversa.
Olhei pelo retrovisor e arrisquei:
— Vocês são do RH e estão indo demitir alguém na loja? Se trata de um bota-fora?
A resposta veio acompanhada de risadas.
— Imagina! a sexta-feira de todo mundo está garantida.
Explicaram que trabalhavam com visual merchandising. Estavam indo trocar a coleção, inspecionar a loja, estoque e sugerir um novo layout para as vitrines.
Deixei as quatro em segurança e segui o dia.
Alguns minutos depois, o telefone tocou.
Do outro lado da linha, uma voz delicada perguntou se, por acaso, eu havia encontrado um celular. Uma delas sentiu falta do aparelho e lembrou que a última vez em que o usara havia sido durante a viagem.
E não é que estava mesmo comigo?
O celular havia escorregado para o assoalho, logo atrás do banco do motorista, num daqueles cantinhos onde os olhos dificilmente alcançam. No desembarque, entre risadas, bolsas, despedidas e a pressa natural de quem chega ao destino, ninguém percebeu que ele havia ficado para trás.
Ela só conseguiu falar comigo porque, no banco de trás, havia encontrado meus contatos na pequena propaganda do Frei.eUber. Às vezes, a melhor publicidade não serve para conquistar novos passageiros. Serve para reencontrar os antigos.
Voltei.
Entreguei o celular.
E recebi uma caixinha daquelas que fazem a gente acreditar que honestidade continua rendendo bons juros.
O dinheiro chegou em boa hora.
Pagou o conserto do pneu traseiro, que havia resolvido furar justamente naquele dia, e ainda patrocinou um almoço digno de uma sexta-feira: um belo peixe ao molho, acompanhado de um purê de batatas capaz de restaurar até o humor de quem passou a manhã inteira desviando de buracos.
No fim das contas, ninguém me sequestrou.
Ninguém foi demitido.
Um celular voltou para a dona.
Um pneu voltou a respirar.
E eu voltei para casa com mais uma certeza: algumas corridas terminam quando o passageiro desce. Outras só acabam depois que a honestidade faz o retorno… e ainda deixa a gorjeta pagar o almoço.
