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muito antes do
Frei eUber

O Homem que Falava com as Folhas

Antes de aprender a escrever estórias, aprendi a vê-las ~ nas mãos calejadas de um homem sem nome, no silêncio das plantas regadas ao alvorecer, na troca muda de uma figurinha por um gato de óculos desenhado à mão.

essa foi, sem dúvida, a primeira crônica que escrevi. Eu devia ter entre nove e dez anos. Arrisco dizer que era julho ~ talvez o começo de agosto ~, nas férias de meio de ano que passei na casa da minha tia madrinha, Josefa Cézar Lopes, professora que me ensinou a amar os livros antes mesmo que eu soubesse por quê. Com seu marido, meu tio padrinho Leonel Ferreira Lopes, irmão da minha mãe, descobri outra alegria: a de digitar.

Enquanto a maioria das crianças da minha idade se espalhava pela piscina ou pelo lago, eu estava pescando histórias que nunca seriam escritas, na secretaria do “Clube Riacho Grande”, vendo meu tio aplicar os exames de admissão e “catando milho” na velha máquina de escrever, como quem descobre, tecla por tecla, um caminho secreto.

Em frente à casa onde meus tios moravam vivia um senhor ~ todos o conheciam apenas como o marido da dona Fumico. Nunca soube seu nome. Mas, durante todos os dias em que estive ali de férias, eu o via cedo, muito cedo, todas as manhãs.

Ele regava as plantas quando o céu ainda bocejava. Eu sabia disso porque espiava pela janela do quarto, de cueca, com o urso de pelúcia apertado contra o peito. Não era medo. Era curiosidade. Ele parecia conversar com as folhas, e eu com o Guga, cachorro dos meus tios, queria entender que língua era aquela que não precisava de som, só de gesto.

Minha mãe, naquela época, ainda não era “Dona Mãe, também conhecida como Zina”. Era só minha mãe. Dizia: “não olha tanto, filho, que ele é esquisito”. Mas esquisito como? Ele nunca gritou, nunca jogou lixo no quintal alheio, nunca fez nada errado ~ a não ser existir de um jeito que os adultos não sabiam nomear. [ Quem sabe esquisito seja apenas tudo aquilo que não cabe no bolso estreito das nossas regras. ]

No dia seguinte, ela voltava para casa, para os meus irmãos menores, e eu ficava ali por todas as férias ~ trinta dias inteiros ~ com meus tios.

O marido da dona Fumico usava um boné azul que parecia ter vindo do tempo em que aviões ainda eram de papel. Carregava sempre um caderninho no bolso. Um dia, deixei uma figurinha do Batman na cerca, virada para o lado dele. No dia seguinte, ela havia sumido ~ mas, em seu lugar, encontrei uma flor seca e um desenho de um gato de óculos. [ Foi a correspondência mais importante da minha vida. ] É uma pena que eu não a tenha guardado.

Os adultos cochichavam: “será que ele tem família?”, “nunca recebe visita”, “coitado, deve ser triste assim”. Mas eu via outra coisa. Ele ria sozinho às vezes, enquanto podava as couves, como se as plantas tivessem contado uma piada que só elas conheciam. Depois, seguia em direção à dona Fumico e dizia algo que eu nunca ouvi.

Até que, de uma semana para outra, a luz da varanda nunca mais acendeu. As plantas murcharam, os gatos desapareceram, e no portão surgiu um papel amarelo balançando ao vento. Ninguém foi lá perguntar o que havia acontecido. Só eu fiquei imaginando se ele tinha ido morar em outro planeta ~ um onde todos regam as plantas às 4h57 e entendem perfeitamente o idioma das folhas.

Anos depois, talvez já com uns quinze, passei novamente pela casa vazia e deixei uma figurinha na cerca. [ Talvez ele nunca tenha ido embora. Talvez tenhamos sido nós que desaprendemos a enxergar. ]

Papo Reto: 11 986 939 147

Desembréia: 02861-060 – Brasil, São Paulo, Cachoeirinha, Vila Rica, Ouvídio José Antônio Santana.

@Luze.Azevedo
@Frei.eUber
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Frei e-Uber

A cidade grande não recebeu o jovem sonhador com braços abertos. Sem dinheiro e sem conhecer ninguém, dormiu em rodoviárias e passou fome antes de encontrar um emprego lavando pratos em uma lanchonete. Subiu para chapeiro e depois subchefe, trabalhando exaustivamente, agarrando cada oportunidade, cada centavo. Mas a promessa de voltar para buscar sua família parecia sempre mais distante.

Foto de Matheus Natan: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoas-cruzando-a-rua-1813406/