geralmente atribuída a Voltaire, aquela frase de que “se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo” ecoa no banco de trás do meu carro como o suspiro de quem perdeu o ônibus na chuva. [a gente sabe que o francês François-Marie Arouet, o tal Voltaire, escreveu isso no longínquo 1770, num poema chamado Épître à l’auteur du livre des Trois Imposteurs]. ele era um homem de sagacidade afiada, crítico da Igreja e da escravidão, mas a verdade é que a rua ensina outras gramáticas.
Há uma provocação em formato de um trem descarrilhado ou um gigante escondido nessa ideia ~ inventar Deus não é necessariamente forjar uma mentira de feira. É o reconhecimento silencioso de que o ser humano, diante do mistério grosso da morte, da injustiça que não cabe no peito e da fome de sentido, cria símbolos pra aquilo que a razão não alcança.
E talvez seja aí que a frase fique maior que o próprio Voltaire ~ se Deus não existisse, a gente precisaria inventá-lo. Não pra explicar as estrelas, mas pra suportar o peso de estar vivo na calçada. Ou, numa leitura mais de boteco e menos de academia ~ talvez Deus tenha nascido menos da vontade de decifrar o universo e mais daquele medo infantil de não querer dormir sozinho no escuro.
Deus ainda visita o homem [passaram-se 256 anos desde que o francês escreveu isso, e a necessidade de amarrar a moral e a sociedade ainda dá as caras, teimosa que só]. Mas ele não desce mais das nuvens ~ pega carona no banco traseiro da “Desembréia de Deus”, esse nome torto que a paróquia deu pro meu carro e pro grupo do Zap, ou talvez seja só a mesa de boteco onde a gente desembaraça o mistério com um café coado ou uns chopps no fim do dia. Ultimamente, as pessoas que entram nesse meu confessionário de quatro rodas questionam a minha figura de Frei e.Uber. A falta do hábito preto é o que incomoda no retrovisor ~ ou talvez seja o excesso de mundo que a gente carrega sem a batina.
E são esses passageiros, com seus cansaços de cidade grande, que me trazem as novas assombrações. Falam de um tal de Jacob Coxon, um jovem de 27 anos, franco-britânico, [cidadão do Reino Unido e da França, formado em Cambridge, onde competiu nas olimpíadas de matemática antes de a vida lhe parecer pequena demais]. Segundo o que circula nas telas iluminadas que eles não largam nem pra rezar, o moço passou os últimos três anos alimentando o pré-treinamento de modelos de inteligência artificial ~ primeiro na OpenAI, e por último na Anthropic, empresa que ele achava mais cautelosa. [o pré-treinamento, eles explicam com a boca cheia de pressa, é quando a máquina engole o mundo em dados].
O britânico disse ao The Wall Street Journal, com a frieza de quem mede o abismo com régua, que nos “cenários mais agressivos” a coisa pode sair do controle já no fim do ano que vem. O risco, segundo ele, é a máquina começar a se inventar sozinha, tornando-se mais rápida que a nossa rédea.
E tem mais ~ um tal de Evan Hubinger, da área de segurança da Anthropic, foi lá no X antigo Twitter e deu razão ao moço. “Nós realmente acreditamos, de forma sincera, que a IA pode matar todos os humanos”, disse ele. [a chance de isso acontecer na próxima década é superior a dez por cento, ele completa, como quem fala da chuva que vai estragar a colheita]. Hubinger garante que estão fazendo o possível, mas confessa, com uma honestidade que arrepia, que ainda não têm um plano pra garantir que um deus de silício obedeça aos seus criadores. [o risco com os modelos atuais é baixo, ele avisa, mas o futuro é um país estrangeiro].
No fim de julho, mais de mil profissionais da tecnologia ~ incluindo o chefão da Anthropic, Dario Amodei ~ pediram a Washington uma pausa, uma desaceleração coordenada antes que o trem descarrilhe. a OpenAI, por sua vez, desligou os fornos por duas semanas em agosto, segurando o treinamento dos modelos mais recentes pra depois retomá-los com rédea curta. O cientista-chefe, Jakub Pachocki, defendeu a “extrema cautela”.
Escuto tudo isso pelo retrovisor, enquanto o carro vai engarrafando devagarinho pelas ruas do Butantã, subindo até a USP – Universidade de São Paulo [onde as árvores até se esforçam pra fazer uma sombra fresca, mas o trânsito da capital não perdoa a alma de ninguém].
O semáforo da Praça do Relógio abre um olho amarelo e cansado, e a gente fica matutando nessas coisas, com o pé na embreagem e o pensamento longe. A gente passou séculos inventando Deus só pra não ter que dormir sozinho no escuro do universo.
E agora, no fim da linha, entre alunos e professores universitários, a gente pariu a ideia de uma máquina tão perfeita que o nosso maior medo é ela nos deixar órfãos de vez. O mistério não mudou de tamanho, só trocou de roupa ~ e a gente continua aqui, seja no volante ou no banco de trás, esperando que alguém, seja o céu ou o código, tenha pena da nossa pequena e teimosa condição de estar vivo.




