ela entrou com dificuldade ~ braço esquerdo imobilizado, cotovelo quebrado ~, mas a autoestima, essa, entrou antes dela. Percebi pelo retrovisor.
— Boa tarde, garoto ~ disse ela, ajeitando-se no banco sem pedir ajuda, com a economia de movimento de quem em pouco tempo aprendeu a não desperdiçar esforço. E, ao entrar na ‘Desembréia de Deus’, preocupada com uma mensagem da operadora do serviço que dizia que estava com um problema de saldo me diz que não sabia onde ver o que significava. Diz, também, que quando se entra nos ‘…enta’ é complicado entender certas mensagens e, me chama de garoto. Amei! e me apaixonei por sua beleza e corpo sarado.
Reparo na sua fisionomia e questiono os tais ‘…enta’.
— Não faço ideia de onde ver isso… sabe como é, né? Tenho 71 anos… certas coisas parecem escritas em outra língua.
— A gente traduz juntos ~ respondi. — Essas operadoras parecem fazer questão de complicar.
Ela riu, e ali já deu pra notar: tinha um riso seco, desses que começam contidos e depois se espalham feito café quente na xícara branca.
— O braço ~ arrisquei — foi o quê?
— Um cadarço desamarrado ~ disse, simples assim, enquanto lutava com o cinto de segurança usando só a mão esquerda, com uma destreza quase teimosa. — Veja você… depois de uma vida inteira ensinando minhas filhas…
Fez uma pausa breve, como quem abre uma gaveta antiga.
— Eu ensinei as duas, além de bons modos, a serem mulheres de valor. A cuidar dos outros, a olhar pro mundo com respeito… e também a amarrar o tênis com a tal da “história do coelho”.
— História do coelho?
— É… você faz a toca, depois as duas orelhas, cruza, passa uma por dentro… e puxa. ~ Ela desenhava no ar, com a mão livre, como se ainda estivesse numa sala com duas meninas pequenas à sua frente.
Olhou pela janela, meio rindo, meio suspirando.
— Agora imagina as duas… tirando sarro da mãe… setenta e um anos… que não aprendeu o que ensinou.
Dessa vez, o riso veio mais curto. Mas veio.
Fui observando melhor: cabelos grisalhos, num tom platinado, na altura dos ombros, com um brilho quase metálico; rosto pequeno, fino; corpo firme, de quem não negocia com o tempo. Roupas de treino e tênis de corrida.
— A senhora corre, né?
— Quinze quilômetros, todo sábado. Sem falta.
— E hoje?
— Hoje o sábado resolveu correr de mim ~ respondeu, com uma ponta de ironia. — Foi mais cedo… tropecei no próprio cadarço. Coisa simples… dessas que a gente subestima até o chão dar a resposta.
Seguimos em silêncio por um trecho. Não era um silêncio pesado ~ era desses que conversam por dentro.
— Frei… ~ ela me chamou de repente, como se o nome tivesse nascido ali mesmo. — Será que dá pra parar numa quitanda? Eu queria comprar uma salada pronta… desde as onze da manhã estou nessa peregrinação de clínica… já são três e meia… meu almoço virou jantar sem aviso prévio.
— Claro que dá.
Encostei o carro, e enquanto manobrava, ela continuou: — Minhas filhas… uma em Santa Catarina, outra no Paraná… já estão dentro de um avião. E não vão deixar barato essa história de eu morar sozinha e ainda inventar essas aventuras.
— E o consultório o que a doutora vai fazer?
— Ah… ~ ela soltou um sopro leve. — Já deixei a neurocirurgia. Mas acho que agora as filhas vão querer me aposentar da clinica à força, também.
Saí, comprei a salada, voltei e entreguei pra ela com cuidado, como quem devolve algo frágil ao mundo.
— E a senhora, com essa energia toda… vai parar?
Ela segurou a embalagem, olhou pra mim com um brilho manso, desses que não pedem explicação.
— Garoto… ~ disse, e naquela palavra cabia uma vida inteira de estrada. — A vida é um cadarço que a gente desamarra sem querer e volta a reaprender a história do coelho.
Fez uma pausa. Ajeitou o braço imobilizado com cuidado ~ como quem aceita, mas não se rende.
— O milagre… é rir enquanto aprende a dar o nó de novo.
