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Carona de Palavras

o Amor com o tempo vira Morte ou Perda,
são as únicas saídas.

Enquanto o café esfria na mesa, eu reparo na mancha que ficou no pires. É engraçado como a gente insiste em guardar o que já acabou ~ tipo aquela caneca lascada na prateleira de cima. Não usa mais ~ tem medo de cortar o lábio ou só pena mesmo. mas ela não vai pro lixo. Fica ali ~ ocupando espaço como quem espera alguém voltar. É engraçado como a gente faz isso com as coisas ~ e com as pessoas também [guardamos o caco porque ele tem o formato exato da nossa mão]. Antes de qualquer coisa, preciso te dizer uma verdade simples.

Carona de Palavras
Como um rio que vira mar, depois nuvem, depois chuva, depois rio outra vez. A dor do amor só existe porque foi verdadeiro. A perda só dói porque houve presença.
o Amor com o tempo vira Morte ou Perda, são as únicas saídas.

O amor não é um destino nem um final feliz. É um acontecimento. Ele passa pela gente e bagunça tudo. Muda os móveis de lugar, deixa um cheiro que não sai, um costume estranho ~ como adoçar o café mesmo quando já não tem ninguém pra reclamar.

com o tempo, o amor aprende a falar a língua da perda. Às vezes, soletra morte. Outras, silêncio. Mas sempre cobra um preço. Amar é aceitar, desde o início, que algo vai faltar no fim.

Não existe amor que não caminhe com a sombra da ausência. A gente ama já sabendo ~ mesmo que finja não saber ~ que um dia vai soltar a mão. Seja porque o corpo acaba, porque os caminhos se desviam, ou porque o tempo, esse sujeito indelicado, muda tudo sem pedir licença. Toda entrega nasce com prazo invisível. Essa é a nossa condição: amar mesmo assim.

Mas dizer que a morte ou a perda são a única saída é olhar o amor só pelo retrovisor. O amor não acaba; ele se transforma. Vira lembrança que aquece o peito num dia qualquer. Vira cicatriz que não dói mais, mas ensina. Vira presença escondida em gestos pequenos — um café adoçado sem motivo, uma música que ainda aperta o peito, um jeito de dobrar a roupa que não se desaprende. O amor cria raiz.

Há amores que não morrem nem se perdem. Eles mudam de estado. Viram silêncio cheio. Distância habitada. Luto que não é vazio. Ficam ali, ocupando um canto da gente, sem fazer alarde, mas também sem ir embora.

Talvez o amor não tenha saída porque nunca foi um lugar. Ele é passagem. Como um rio que vira mar, depois nuvem, depois chuva, depois rio outra vez. A dor só existe porque foi verdadeiro. A perda só dói porque houve presença. E a dor, ao contrário do que dizem, não apaga o vivido — ela carimba.

Escrever sobre isso é aceitar a beleza meio trágica de estar vivo. Sem romantizar demais, sem cinismo. O amor é frágil, sim. E justamente por isso é honesto. Talvez exista, entre a entrega e a perda, um espaço que não se apaga: a marca que o amor deixa na alma. Isso o tempo até tenta, mas nunca consegue levar.

O amor não é um destino nem um final feliz. É um acontecimento. Ele passa pela gente e bagunça tudo. Muda os móveis de lugar, deixa um cheiro que não sai, um costume estranho ~ como adoçar o café mesmo quando já não tem ninguém pra reclamar.

A perda dói porque o amor ocupou espaço. Só o que foi pequeno some sem barulho. O amor grande faz ruído até quando vira silêncio. E esse silêncio não é vazio: é cheio de eco.

Talvez o erro seja exigir permanência do amor. Ele nunca prometeu isso. Prometeu intensidade. Verdade. Presença enquanto houve fôlego. O tempo é que resolve o resto ~ às vezes com cuidado, às vezes com brutalidade.

No fim das contas, amar é aceitar essa beleza cruel de existir: nada fica, mas tudo marca. E algumas marcas, mesmo doendo, a gente não trocaria por nada. Porque são elas que provam que estivemos vivos, abertos, inteiros — ainda que por pouco tempo.

Se o amor termina em perda, que termine. Pior seria atravessar a vida sem nunca ter sido atravessado.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus

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