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Carona de Palavras

na Descida de Deus, entre tombos e parábolas

Num trajeto de quinze minutos pela chamada Descida de Deus, entre a avenida dos três tombos e uma loja de conveniência qualquer, uma psicóloga que prefere o carnaval doméstico me ofereceu cerveja, uma parábola sobre liderança e a lembrança inevitável de que cair faz parte ~ levantar é escolha.

Carona de Palavras

onde o trânsito é lento mas as conversas voam ~, descobri que os maiores tratados sobre liderança não estão em manuais de gestão, mas saem da boca de uma psicóloga com fardos de cerveja, minutos antes do carnaval. E que às vezes basta uma corrida de quinze minutos para alguém nos lembrar: o melhor Líder não é quem manda, é quem caminha na lama com a gente ~ e ainda assim insiste que levantar vale mais que nunca cair.

na Descida de Deus, entre tombos e parábolas

há quem vista plumas, há quem vista pijama. no fundo, toda fantasia é tentativa de caber melhor em si mesmo. Enquanto a cidade samba na rua, alguém escolhe maratonar filmes, abrir uma cerveja gelada e descansar do mundo ~ e isso também é carnaval. Porque a verdadeira folia talvez não esteja no barulho dos blocos, mas na liberdade de decidir onde o nosso copo e a nossa alma querem dançar.

— Moço, ~ adorei o moço do alto dos meus 60 anos ~, você conhece a Descida de Deus? [ sim, existe um lugar com esse nome, e ele carrega a ironia própria da geografia paulistana ]. Alguns também chamam a Dom Vilares*, de a rua dos três tombos ~ confesso que eu nem sabia dessa nova nomenclatura. Mas aqui na “Desembréia de Deus” nada é por acaso e uma viagem de dez, às vezes quinze minutos, rende universos. Rende receita de bolo que nunca dá errado, fofoca de novela com tese sociológica embutida, palpite sobre o próximo jogo como se fosse final de Copa, teoria política de banco ~ nada Master ~ traseiro mesmos e até silêncios que dizem mais do que muito discurso em horário nobre.

— Sim! ~ respondi e imediatamente ela acrescentou — toca pra lá então.

Julieta pediu, porém, antes uma paradinha na loja de conveniência. Queria cerveja. passaria o carnaval em casa, descansando, tomando suas geladas com a serenidade de quem escolheu o próprio exílio festivo. Ofereceu-me uma. Recusei. A regra é clara, límpida como água de nascente: bebida e volante até podem flertar, quem sabe trocar promessas por alguns quilômetros. Mas é na separação que a vida de ambos floresce ~ e os outros motoristas agradecem em silêncio.

Perguntei o que assistiria nesses dias de folga.

— Além das séries que estou maratonando ~ disse ~ vou assistir um filme “Cartas na Mesa ou Armas na Mesa“. não lembro direito o nome.

Sorriu, com aquela honestidade de quem não faz questão de parecer exata.

— E como o tempo é meu agora, se existirem os dois, assisto os dois.

Deixei-a em casa, mas não sem antes descobrir que era psicóloga na empresa onde nos conhecemos ~ e chefe do RH. Dessas ironias que o universo prepara sem pedir opinião. Ao se despedir, lançou-me um olhar meio sério, meio brincalhão: ~ sorte na sua carreira, Frei.

Nunca vi funcionário tão comprometido ~ me contou uma estória. Ganhou uma missão do chefe, do líder, do Pai… e foi. Não perguntou se era fácil ou difícil. Foi e fez.

E então, como quem solta uma parábola no meio do trânsito da tarde, continuou: quer um modelo de líder? Olhe para Ele.

Pegou doze funcionários sem currículo estelar e transformou-os em gente capaz de abalar impérios. Não moldava à força; lapidava o que cada um trazia de único. Tirava o melhor sem sugar o resto ~ e isso, convenhamos, é milagre corporativo. Nunca um time se sentiu tão visto, tão amado.

Não ficava no ar-condicionado do escritório nem na tenda confortável das decisões estratégicas. Ia junto. Sujava os pés na poeira da estrada. Sentia o mercado ~ e o coração do mercado.

Até hoje, o nome mais buscado na internet é o d’Ele. Um sucesso absoluto em métricas eternas. Mas fracassou, aos olhos do mundo. E veio nos lembrar de uma coisa simples, quase doméstica: você vai cair. Vai escorregar na própria pressa. Vai tropeçar no próprio orgulho.

Mas para Deus ~ e para a vida ~ não importa quantas vezes você cai. Importa quantas vezes você decide levantar.

A porta do carro se fechou com aquele som seco que sempre anuncia um fim provisório. Ajudei com as sacolas da loja, ela sumiu pelo portão, e eu já tinha outro passageiro à espera ~ a vida não gosta de intervalos longos. O sujeito, antes mesmo de sentar, me lançou um desafio com a naturalidade de quem pergunta as horas:

— Você sabe a diferença entre rosa e repolho?

Mas essa é estória para a próxima crônica.

* Ao que tudo indica ~ me corrijam se estiver errado ~ Dom Vilares foi um arcebispo que marcou a história da Igreja em São Paulo, um desses nomes que viram placa de rua [ o mapa mostra o caminho, mas raramente conta a biografia ] e acabam descendo ladeira sem que a gente saiba direito quem foram.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus

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