— Moço, ~ adorei o moço do alto dos meus 60 anos ~, você conhece a Descida de Deus? [ sim, existe um lugar com esse nome, e ele carrega a ironia própria da geografia paulistana ]. Alguns também chamam a Dom Vilares*, de a rua dos três tombos ~ confesso que eu nem sabia dessa nova nomenclatura. Mas aqui na “Desembréia de Deus” nada é por acaso e uma viagem de dez, às vezes quinze minutos, rende universos. Rende receita de bolo que nunca dá errado, fofoca de novela com tese sociológica embutida, palpite sobre o próximo jogo como se fosse final de Copa, teoria política de banco ~ nada Master ~ traseiro mesmos e até silêncios que dizem mais do que muito discurso em horário nobre.
— Sim! ~ respondi e imediatamente ela acrescentou — toca pra lá então.
Julieta pediu, porém, antes uma paradinha na loja de conveniência. Queria cerveja. passaria o carnaval em casa, descansando, tomando suas geladas com a serenidade de quem escolheu o próprio exílio festivo. Ofereceu-me uma. Recusei. A regra é clara, límpida como água de nascente: bebida e volante até podem flertar, quem sabe trocar promessas por alguns quilômetros. Mas é na separação que a vida de ambos floresce ~ e os outros motoristas agradecem em silêncio.
Perguntei o que assistiria nesses dias de folga.
— Além das séries que estou maratonando ~ disse ~ vou assistir um filme “Cartas na Mesa ou Armas na Mesa“. não lembro direito o nome.
Sorriu, com aquela honestidade de quem não faz questão de parecer exata.
— E como o tempo é meu agora, se existirem os dois, assisto os dois.
Deixei-a em casa, mas não sem antes descobrir que era psicóloga na empresa onde nos conhecemos ~ e chefe do RH. Dessas ironias que o universo prepara sem pedir opinião. Ao se despedir, lançou-me um olhar meio sério, meio brincalhão: ~ sorte na sua carreira, Frei.
Nunca vi funcionário tão comprometido ~ me contou uma estória. Ganhou uma missão do chefe, do líder, do Pai… e foi. Não perguntou se era fácil ou difícil. Foi e fez.
E então, como quem solta uma parábola no meio do trânsito da tarde, continuou: quer um modelo de líder? Olhe para Ele.
Pegou doze funcionários sem currículo estelar e transformou-os em gente capaz de abalar impérios. Não moldava à força; lapidava o que cada um trazia de único. Tirava o melhor sem sugar o resto ~ e isso, convenhamos, é milagre corporativo. Nunca um time se sentiu tão visto, tão amado.
Não ficava no ar-condicionado do escritório nem na tenda confortável das decisões estratégicas. Ia junto. Sujava os pés na poeira da estrada. Sentia o mercado ~ e o coração do mercado.
Até hoje, o nome mais buscado na internet é o d’Ele. Um sucesso absoluto em métricas eternas. Mas fracassou, aos olhos do mundo. E veio nos lembrar de uma coisa simples, quase doméstica: você vai cair. Vai escorregar na própria pressa. Vai tropeçar no próprio orgulho.
Mas para Deus ~ e para a vida ~ não importa quantas vezes você cai. Importa quantas vezes você decide levantar.
A porta do carro se fechou com aquele som seco que sempre anuncia um fim provisório. Ajudei com as sacolas da loja, ela sumiu pelo portão, e eu já tinha outro passageiro à espera ~ a vida não gosta de intervalos longos. O sujeito, antes mesmo de sentar, me lançou um desafio com a naturalidade de quem pergunta as horas:
— Você sabe a diferença entre rosa e repolho?
Mas essa é estória para a próxima crônica.
* Ao que tudo indica ~ me corrijam se estiver errado ~ Dom Vilares foi um arcebispo que marcou a história da Igreja em São Paulo, um desses nomes que viram placa de rua [ o mapa mostra o caminho, mas raramente conta a biografia ] e acabam descendo ladeira sem que a gente saiba direito quem foram.
