toda vez que escuto algo sobre a Lua ~ por exemplo, essas notícias recentes de gente tentando de novo cravar uma bandeira na poeira cinza ~ eu volto a 1979. Lembro da canção A Lua, do pernambucano que virou paulistano, Renato Rocha, escrita para o MPB-4.
A repetição de “mente quem diz que a lua é velha” não é só recurso de refrão; é teimosia de quem conhece o chão.
Quando a letra enumera as fases [Nova! Crescente ou Meia… É Cheia!… Minguante e Meia… Depois é Lua novamente], ela não está dando aula de astronomia. Está dizendo que a vida ~ essa senhora de sapato gasto e bolsa pesada ~ também roda. Muda de cara, mas nunca para. E em cada giro, um recomeço cabe.
É dele também Dia Branco, com Geraldo Azevedo. “se você vier / pro que der e vier / comigo / eu lhe prometo o Sol / se hoje o Sol sair / ou a chuva / se a chuva cair”. mas essa fica pra outro post [prometo que deixo o sol e a chuva em paz, rs].
Voltando à Lua do Renato: a linguagem é simples, quase de brincar, e por isso entra fácil ~ como cheiro de pão torrado no corredor do prédio. O ciclo, tratado com leveza, convida a gente a se olhar no espelho prateado e enxergar a própria renovação.
Se pensarmos no tempo em que o MPB-4 cantava [dias de censura, de vozes baixas e olhos atentos], a música vira resistência disfarçada de cantiga. A criatividade, como a lua, insiste. Mesmo quando apagam as luzes, ela sabe o caminho de volta.
Então, se mente quem diz que a Lua é velha, hoje ela está minguante e, no dia 17 de abril de 2026, volta a ser Nova. O calendário na parede da cozinha já sabe ~ mesmo que a gente passe o dedo no papel como se fosse adivinhar o futuro.
No fim das contas, a gente passa a vida tentando decifrar o céu ~ mapas, satélites, aplicativos que piscam no celular enquanto o ônibus balança ~ enquanto a lua, coitada, só quer saber de ir e vir, de sumir e reaparecer, de nos lembrar que todo recomeço cabe num simples virar de fase. E nós, tão ocupados em conquistar o que já está ali [o brilho, o ciclo, o ritmo], talvez tenhamos esquecido de aprender com ela a única coisa que importa: como desaparecer um pouco para renascer inteiro.
