o Sammy é pai de dois filhos ~ uma menina de dez e um menino de seis. Pediu uma corrida com duas paradas e ainda tentou emplacar uma terceira, porque o aplicativo, como quase sempre, resolveu não colaborar. Quando entrou no carro, explicou: primeiro a gente ia buscar o menino na creche ~ o garoto andava meio agitado, arrumando confusão com os coleguinhas. Depois, a filha, na casa da tia, que ia dar uma força para cuidar do irmão lá na UPA ~ Unidade de Pronto Atendimento ~ de Cumbica.
Perguntei se podia deixar o rádio ligado. Ele fez sinal de positivo e seguimos. No caminho, caiu Hey Jude na minha seleção de Beatles do dia. Aí já viu ~ quando essa música começa, alguém sempre acaba contando uma história.
Expliquei pra ele, num tom bem de conversa mesmo: Hey Jude nasceu num momento complicado. O Paul McCartney escreveu a música pensando no Julian Lennon, filho do John E Cynthia, que estava sofrendo com a separação dos pais. Não era nada grandioso, não ~ era só um adulto dizendo pra um garoto: “vai doer, mas passa”. Quando ele canta “Take a sad song and make it better” [ pegue uma canção triste e a torne melhor ], é quase um conselho de vida. Tipo: sente a dor, mas não mora nela. Deixa o coração aberto, não tenta ser forte o tempo todo sozinho.
Falei também que, com Beatles, eu sou suspeito ~ mas que ali quase nada é por acaso. John e Paul começaram cedo demais. Tinham quinze, dezesseis anos, mal sabiam o que era a vida, e já estavam escrevendo música juntos em quarto apertado, ônibus, qualquer canto. Funcionavam como dupla de verdade ~ um puxava a ideia, o outro arrematava. Parecia coisa de amizade de escola, mas com talento de gente grande.
Em algum momento, eles fizeram um acordo simples, desses que hoje ninguém mais faz: toda música que saísse, fosse de um ou de outro, levaria os dois nomes ~ Lennon/McCartney. Sem papel, sem advogado, só confiança. Eles acreditavam que juntos iam mais longe… e foram.
Contei que o Paul brinca dizendo que nem estava presente quando decidiram a ordem dos nomes. Resolveram por ordem alfabética [ L antes do M ] e pronto. Virou padrão. Mesmo quando a música era claramente mais de um do que do outro, os dois assinavam juntos. Isso mostrava parceria, unidade ~ e, sem querer, ensinava que dividir também é uma forma de vencer.
Claro, depois a amizade desgastou. Rolou mágoa, discussão, fim de banda. Acontece. Mas naquele começo tinha algo muito bonito ali ~ dois garotos apostando um no outro.
A conversa foi ficando boa e o menino, Nikolas, acabou dormindo no colo do pai. Sem interrupções, sem pressa. Na casa da irmã, entra Nayara, a filha. No exato momento começa Let It Be. Rimos da coincidência e falamos da música. Expliquei que muita gente acha que ela anuncia o fim dos Beatles, mas que o verdadeiro encerramento é The End [ do Abbey Road ] ~ aquela música que soa como despedida bem resolvida.
No fim de Let It Be, contei outra história: “Mother Mary” não é a Virgem Maria. É a mãe do Paul. Ela morreu quando ele era adolescente e apareceu num sonho, anos depois, num momento difícil, dizendo simplesmente “let it be” [ deixa estar ]. Às vezes, é só isso que a gente precisa ouvir.
Chegamos à UPA. O menino estava bem, só todo ‘empipocado’ ~ brincou com um gato de rua e deu reação alérgica. A filha contou que o gato foi presente da mãe. O pai suspirou e reclamou que, se ela fosse mais presente, saberia da alergia do filho. Dava pra sentir que essa separação ainda machuca.
Falei, meio rindo, meio sério, que essa história não ia virar uma Hey Jude. Estava mais para Let It Be mesmo ~ aceitar o que não dá mais pra consertar e seguir em frente do melhor jeito possível.
Trocamos telefone e combinamos de ouvir mais Beatles qualquer dia desses.
E fiquei pensando depois, sozinho no carro, que talvez seja isso que a vida pede da gente quando vira adulto de verdade ~ ensinar sem discurso. Mostrar pros filhos que dá pra atravessar a dor sem amargura, que parceria importa, que ninguém cresce sozinho. No fim das contas, unidos venceremos não é frase bonita ~ é escolha diária. É o jeito como a gente ama, cuida e segue, mesmo quando a música muda de tom.
