o aplicativo indicou o ponto de partida: Cemitério São Paulo. Destino: rua Capistrano de Abreu, Santa Cecília.
Não me assustei. Cemitérios e mortos nunca me assombraram. Aceitei a corrida e parti.
Quem entrou no carro foi o senhor Trajano ~ voz grave como sino de igreja antiga, olhar sereno e um sorriso discreto, daqueles que parecem guardar histórias a sete chaves, como relíquias de um tempo que já não volta.
Acomodou-se no banco de trás e, ao ouvir meu “boa tarde”, respondeu com uma solenidade quase litúrgica:
— Deus está com você, moço.
Confesso: adoro quando me chamam de “moço”. É como se, de repente, vinte anos de estrada ~ com seus desvios, poeira e desgaste ~ fossem apagados por um atalho mágico.
Por um instante, o Waze da vida sussurra: “Por este caminho, você economiza vinte anos.”
E, nesse milésimo de segundo de ilusão doce, volto a ser jovem não pela idade, mas pela leveza ~ como se o tempo, por generosidade ou descuido, tivesse me devolvido um pouco de futuro.
Descobri, ao longo do trajeto, que Trajano é professor aposentado de literatura, ex-ator ~ atuou nos grandes palcos do Brasil por 25 anos ~ e, hoje, aos 75, viúvo há cinco, tornou-se um frequentador assíduo de cemitérios.
— Vou ao São Paulo pelo menos duas vezes por semana ~ às vezes três, disse, com um brilho no olhar. — É o meu preferido! Lá repousam Tarsila do Amaral, a Marquesa de Santos… até o poeta Fagundes Varela costumava caminhar por ali à noite, depois que perdeu o filho. Há quem jure ter visto os espíritos deles vagando entre as lápides.
Curioso, perguntei se ele também ia atrás de aparições.
— Não, meu amigo!, respondeu, rindo com a franqueza de quem não tem mais tempo para fingimentos. — Eu vou lá pra namorar as viúvas e as parentes dos que estão sendo velados.
Surpreendi-me. Namorar… num cemitério?
— É justamente onde os corações estão mais abertos, explicou. Todo mundo ali está se despedindo de alguém. E quem se despede carrega um buraco dentro de si , um espaço perfeito pra uma boa conversa.
Seguimos em silêncio por alguns metros, eu guiando o carro, ele contemplando a cidade como quem assiste ao último ato de uma peça.
Pensei: um homem que passou a vida interpretando outros agora encena a si mesmo ~ não nos palcos, mas entre túmulos e coroas de flores murchas, buscando, nas despedidas alheias, um fio de calor humano.
A vida, às vezes, ensina a sobreviver de maneiras absurdas. Pega um ator, um professor aposentado, a solidão da viuvez, a geografia dos cemitérios e a dor dos outros ~ e escreve atos shakespeariano disso tudo, em uma estratégia de afeto. Não é romance, não é loucura. É a arte de ainda estar vivo, mesmo quando o mundo parece feito só de silêncios.
Na Capistrano de Abreu, ele desceu com um aceno tranquilo, o sorriso de quem sabe que o teatro está em toda parte ~ até nos bancos de trás de carros de aplicativo. Misturou-se à multidão como um fantasma bem-humorado, e deixou pago a corrida.
Fiquei parado por um instante, observando o fluxo da cidade. E me veio a pergunta: quantos de nós não dirigimos, não caminhamos, não aceitamos corridas ~ não por necessidade de chegar a algum lugar, mas pela esperança de encontrar, no olhar de um desconhecido, um buraco que combine com o nosso?
Talvez o verdadeiro destino nunca esteja no mapa. Talvez esteja na brecha ~ por onde escapa um verso, um suspiro, ou o convite mais improvável para preencher, mesmo que por alguns minutos, um silêncio que doía demais.
