ela entrou no carro, rádio ligado e eu ainda ajeitava o cinto. A voz do locutor vinha firme, celebrando os números do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística como quem anuncia colheita farta. …”menores níveis de desemprego desde 2012“, repetia, enquanto o carro cortava a cidade. Gráficos subiam, manchetes sorriam.
E entre tantos números animadores, há gente que acorda cedo, trabalha o dia inteiro e, mesmo assim, sente que o salário não conversa com o esforço. Entre essas pessoas, eu conheci Natali.
Natali revirou os olhos com a precisão de quem tem prática. A notícia ainda ecoava, e antes que eu perguntasse se podia deixar o rádio ligado — [cortesia básica de motorista de aplicativo] — ela já se fez comentarista.
— Querido, se depender do IBGE, eu tô empregada há cinco anos. Mas o boleto da SABESP ainda não entendeu que, segundo as estatísticas, eu deveria estar nadando em dinheiro.
— Talvez seja problema de comunicação entre os gráficos e a conta de água ~ sugeri. ~ já tentou apresentar o relatório do IBGE na fatura?
Ela riu daquele jeito que mistura cansaço e esperança ~ uma gargalhada que sabe das próprias contas.
— Então quer dizer que o Brasil está bombando? ~ ela perguntou, ajeitando o cabelo com a naturalidade de quem já encarou tempestades piores que segunda-feira.
— Segundo o IBGE, sim ~ respondi. ~ mas o IBGE não paga boleto.
— Nem meus boletos, nem os de ninguém que eu conheço ~ ela completou. ~ deve ser por isso que eu nunca encontro essas pessoas dos gráficos sorridentes no ponto de ônibus.
— Elas devem andar de helicóptero ~ sugeri. ~ gráfico que sobe não desce pro asfalto.
Natali trabalha com tanatopraxia [conservação] e necromaquiagem [estética]. retarda a decomposição, devolve dignidade ao rosto de quem partiu. faz do silêncio um ofício.
— Eu preparo despedidas ~ disse ela, com a serenidade de quem entende o peso das mãos.
— E como é que alguém entra nessa área? ~ perguntei. ~ tem vaga no jovem aprendiz para defunto?
— Você não imagina a concorrência ~ ela respondeu, séria. ~ tem gente que morre pra entrar. Outros, infelizmente, entram e não saem mais. estabilidade, sabe como é.
Confessei a ela que lidar com os mortos me assusta na vida real.
— Mas no plano etéreo, você acha bonito, né? ~ ela cutucou.
— No plano etéreo, eu romantizo tudo ~ admiti. [é meu defeito mais literário.]
— Pois no plano concreto ~ ela disse, ~ os mortos são mais educados que os vivos. não reclamam do salário, não fazem greve, não pedem aumento. Só que o problema é justamente esse: eles também não consomem. E a economia precisa de gente viva gastando.
Mas o desejo dela é voltar para a enfermagem. Terminou o curso, mas não conseguiu estágio. A vida empurrou para a área de limpeza, primeiro numa funerária. Depois, degrau por degrau, chegou ao cargo de chefe nos cuidados com os falecidos.
— Isso já cansou ~ confessou. ~ Agora quero abraçar a carreira em que me formei. Cuidar dos vivos antes que eles virem estatística.
— Então você quer trocar os mortos pelos vivos? ~ perguntei. ~ tá preparada para a falta de educação?
— Os vivos reclamam mais ~ ela admitiu. ~ mas também agradecem. Já os mortos… são ingratos, sabia? Nunca um agradeceu meu trabalho.
— Falta de consideração ~ concordei. ~ você dando o melhor, retocando a maquiagem, e eles nem um obrigado.
— Pior que um dia um agradeceu ~ ela contou, com um sorriso discreto. ~ mas aí a família ouviu, quase infartou, e eu quase perdi o emprego. Morto que agradece dá problema.
— Ou seja ~ eu disse, ~ você prefere os vivos porque eles reclamam, mas ao menos não falam quando deviam estar calados.
— Exatamente. E também porque enfermeira ganha melhor.
— Aí você quebra a poesia com realismo ~ reclamei.
— Poesia não paga boleto, Frei. você mesmo disse.
Houve uma pausa. O rádio ainda celebrava os números do emprego.
— Mas deixa eu te perguntar uma coisa ~ ela continuou. — se o país tá com tantas vagas, por que ninguém me chama? Meu currículo é bom, tenho experiência com gestão de pessoal [mesmo que os funcionários não reclamem], tenho curso superior completo…
— Talvez o problema seja a área de experiência ~ sugeri. ~ quando o RH vê “tanatopraxia”, deve pensar que você vai deixar os pacientes mais quietos do que deviam.
— Pode ser ~ ela riu. ~ ou então pensam que eu tenho contatos sobrenaturais. “Essa aí deve ter moral com quem já foi”. E isso assusta.
— Mas também podia ser vantagem ~ argumentei. “Precisa-se de enfermeira com experiência em silêncio absoluto e clientes que não dão trabalho”.
— Ia adorar essa vaga ~ ela suspirou. “Clientes que não reclamam da comida, não pedem cobertor, não chamam a família de madrugada”. Putz, ia ser a realização profissional.
Resolvi presenteá-la com meu primeiro livro, Endora. Edição de 1994, páginas com aquele cheiro de papel que já viveu.
— Para você mergulhar ~ disse, entregando o livro como quem oferece café quente em tarde fria. ~ depois, se gostar, quem sabe me conta histórias dos mortos? Eu publico. Prometo trocar o medo por poesia.
Ela segurou o livro como quem segura um recém-nascido ~ com cuidado e alguma expectativa.
— Espero que Endora toque seu coração ~ falei.
— Se tocar, eu te conto o que os mortos me ensinam sobre os vivos ~ respondeu ela. ~ mas já vou dar um spoiler: os mortos não se importam com currículo. os vivos, sim. e isso diz muito sobre quem ainda está aqui.
— Os mortos não precisam de emprego ~ ponderei.
— Justamente ~ ela disse. ~ Por isso são mais sábios. A sabedoria vem quando a gente para de se preocupar com a carteira assinada.
— Você vai largar tudo pra virar filósofa?
— Não posso ~ ela riu. ~ Filósofo também precisa de currículo hoje em dia. E o mercado tá difícil até para pensadores.
E ali, entre estatísticas otimistas e sonhos remendados, percebi: currículo bem feito é importante, sim. Mas há forças que não cabem no papel ~ a coragem de recomeçar, por exemplo.
Essa não tem gráfico que meça.
— Então ~ eu disse, parando o carro. ~ boa sorte na busca. Se precisar de referência, pode usar meu nome.
— Você vai dizer que sou uma ótima profissional?
— Vou dizer que você é a única pessoa que conheço que faz os outros ficarem quietos e bonitos ao mesmo tempo. Isso é raro.
Ela desceu rindo.
— Se não der certo na enfermagem, tento carreira política. Com esse talento pra silenciar os outros, vou longe.
