ele ainda não chegou aos 30, e já riscou da lista muitas metas ~ uma casa, por exemplo; carro, nem pensa por enquanto, prefere andar de Uber, e eu agradeço ~ aquelas que só costumam surgir bem depois dos 40. O depois, admite, ainda é um território em branco. “prefiro pensar a vida de 10 em 10 anos”, diz, com um sorriso tímido ~ desses que denunciam alguém que mede o chão antes de dar o passo. Matias é sous-chef, especializado em gastronomia brasileira e francesa, e no primeiro trimestre de 2026 será Chef ~ com todas as honrarias que merece. E, durante a viagem a bordo da Desembréia de Deus, me provoca: quer saber qual é, na minha opinião, o prato de comida mais gostoso do mundo.
Confesso que minha cultura gastronômica é curta. além de Minas ~ minha memória de infância ~, conheci alguns pratos capixabas e experimentei um pouco da Tailândia: o Pad Thai [macarrão de arroz frito], a sopa Tom Yum Goong [picante de camarão] e uma salada de mamão verde cujo nome nunca guardei. fora isso, massas ~ que não sei dizer se são italianas, brasileiras ou apenas massas mesmo, porque me falta esse discernimento. lembro ainda de um Puchero, anunciado como espanhol, mas que me pareceu brasileiro até o osso.
Matias ri, limpa as lentes dos óculos com calma e decreta, sem piedade: a melhor comida do mundo é a brasileira. Explica que se especializou na francesa porque trabalha num restaurante francês, mas que nada, nunca, vai superar o bom e velho arroz com feijão, bife e salada.
Ao longo da viagem, trocamos receitas e dicas ~ como fazer um bom azeite aromatizado com ervas, um caldo rico de sobras de legumes e de peixe. ficaram na minha memória, e, se não se perderem pelo caminho, ainda darão uma mesa requintada para o Natal deste ano.
Quando chegamos à sua casa, o assunto muda de tempero e vira afeto: Maia, sua cachorra, está prenha ~ em pouco tempo, a casa vai transbordar de pastores-alemães em miniatura. Digo que até gosto da raça, mas confesso um sonho antigo: ter uma fêmea doberman e caminhar com ela pelas praias de Itacaré, no nordeste do Brasil, entre peixe frito e água de coco.
A porta do carro se fecha. Maia corre em direção a Matias ~ sem alarde, nenhum latido ~ e a barriga prenhe quase raspa o chão. Ela o cheira inteiro, como quem confirma pertencimentos. Ele retribui com carinho na cabeça e no ventre e se despede de mim com um “até qualquer dia, Frei!”.
E assim a conversa se desfaz no ar, deixando um rastro de feijão misturado com cozinha profissional. Fico pensando nas especializações que acumulamos, nas pátrias que inventamos para o paladar, nos planos traçados em décadas enquanto a vida ~ redonda, quente, prestes a parir ~ insiste em nos cutucar pelos pés. Acho que a verdadeira receita esteja justamente aí: ele, mestre em técnicas francesas, desejando o prato simples de todo dia; eu, de referências escassas, sonhando com uma cadela elegante e uma praia sem fim. No fundo, a melhor comida do mundo é sempre aquela que se divide com um desejo, qualquer um ~ mesmo que seja apenas seguir em frente, entre um cheiro de cachorro e um “até qualquer dia”. Porque a vida, afinal, é isso: um prato comum, servido com uma dose generosa de absurdo, que nos arranca um sorriso torto e nos faz perguntar, mastigando devagar, o que realmente vale a pena engolir até o último grão.
