Frei.eUber

a Trilha, a Poeira e o Prato: as coincidências da origem do nome

alguns destinos se escrevem a tiros de festim e temperos de domingo. Frei carrega no nome a prova de que o universo tem um senso de humor peculiar: junta a poeira do Velho Oeste, a partida de um maestro e a alquimia do trigo para compor uma receita em que a vida, no fim, sempre pede a conta

a vida de Frei e.Uber sempre teve a poeira do Velho Oeste e a trilha sonora dos spaghetti westerns italianos misturadas ao seu próprio desabrochar. ele havia chegado a São Paulo dez anos antes, aos dezoito, vindo de Uberlândia com uma mochila pequena e uma promessa grande demais para caber nela. Mas foi em 10 de novembro de 2000, aos 28 anos, que nasceu o homem que viria a ser Frei e.Uber. Naquele tempo, Ennio Morricone já não tinha mais 28, mas carregava nos ombros o peso e a glória de ser um dos maiores compositores de trilhas sonoras da história do cinema.

Não foi uma chegada à cidade. foi outra coisa. talvez um renascimento.

Vinte anos depois, em 6 de julho de 2020, após de se desentender com o pai [uma longa história para outro vinho, pasta e outra prosa], Frei chegou ao Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo. Coincidência cósmica ou apenas mais uma dessas brincadeiras que a vida gosta de fazer quando a gente está distraído? Era o mesmo dia em que Ennio Morricone partia desta para a melhor.

E foi ali, entre o luto pelo maestro e o cheiro de manjericão, que Ennio Freitas, um garoto vindo de Uberlândia, Minas Gerais, o Frei e.Uber, nasceu para a gastronomia, nas trincheiras do Macarrone Pasta e Basta.

Seu nome? Uma herança cinematográfica.

O pai, homem de poucos livros, mas de alma errante, adorava os filmes de bangue-bangue e vivia cercado pela fantasia das balas, dos tiros e dos duelos que pareciam resolver a vida em poucos minutos. Na vida real, porém, as coisas eram menos cinematográficas. Havia tiros de outro tipo, que feriam ele, a mãe e as irmãs.

Como a música era instrumental e não havia letras para soletrar, foi o próprio nome do compositor, Ennio, que serviu de batismo. Um homem que talvez não soubesse ler as partituras da vida, mas sabia reconhecer o ritmo dos tiros no asfalto.

A curiosidade sobre o músico, no entanto, nunca lhe tirou o sono. Durante anos, Ennio foi apenas um nome. Um nome herdado, desses que a gente carrega sem perguntar muito de onde veio. O mistério passou batido até que o asfalto de São Paulo resolvesse, décadas depois, pregar-lhe uma peça.

No exato dia da morte de Morricone, uma cliente do restaurante [dessas pessoas que a vida coloca no nosso caminho como um presente disfarçado] contou-lhe a história do maestro. Foi o instante em que o pó do faroeste começou a virar ouro.

A mesma amiga, frequentadora assídua do restaurante, não apenas lhe apresentou o gênio da música. Uma semana depois, apareceu com um presente: um CD da Orquestra Sinfônica Nacional Dinamarquesa, gravado no DR Koncerthuset, em Copenhague.

Ennio, que até então conhecia apenas o eco das guitarras solitárias dos filmes de bangue-bangue, descobriu que havia muito mais por trás daquele nome que carregava desde o nascimento. Descobriu que a trilha sonora da sua própria vida podia ser uma avalanche de emoções sinfônicas.

Ter um nome que carrega o peso de uma trajetória e o som de uma orquestra é um fardo e tanto. Mas, convenhamos, nem de longe, nem de perto, essas coincidências o transformaram em músico.

Como ele mesmo diz, com aquele sorriso de quem conhece o segredo do ponto da água: foi a massa, e não a música, que o profissionalizou.

E talvez aí esteja a melhor ironia de todas.

O homem recebeu o nome de um maestro, chegou a São Paulo no ano 2000 e, exatamente vinte anos depois, encontrou a história do compositor no mesmo dia em que ele morreu. Ganhou um disco de uma orquestra dinamarquesa e, no fim das contas, não foi parar diante de um piano, de um violino ou de uma batuta.

Foi parar diante de uma panela.

Porque a vida tem dessas delicadezas tortas. Às vezes, o destino anuncia uma sinfonia e entrega uma massa. Às vezes, promete um faroeste e serve manjericão.

Mas uma coisa é certa: sem a trilha, a massa não teria o mesmo sabor.

E, sem a massa, a trilha talvez não tivesse onde pousar.

Afinal, parafraseando o destino e respeitando o cardápio, há histórias que não pedem bis.

Pedem pasta e basta.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus