Richard entrou no carro carregando um embrulho.
Era daqueles embrulhos feitos com um papel que, antigamente, servia para quase tudo, amarrado com cordonê. Embrulhava roupa, carne, prego, parafuso, um pedaço de queijo e, se fosse preciso, até uma notícia ruim. Papel de armazém. Desses armazéns que a gente chamava de Secos e Molhados, quando ainda havia lugares onde o mundo inteiro parecia caber atrás de um balcão. Ele colocou o embrulho no banco, com cuidado.
— É um vestido.
Disse como quem apresenta alguém. O vestido tinha sido de Marialva.
Marialva era baiana. Linda, segundo Richard.
Olhos cor de mel, cabelos negros como a noite e, aos sessenta e cinco anos, ainda uma menina com energia de vinte.
— Ainda são negros? ~ perguntei.
Ele riu.
— Aos sessenta e cinco, ainda teimam em ser. Com uma pequena ajuda da tinta nos últimos vinte anos, é verdade. E riu de novo.
De repente, Richard me perguntou:
— Posso abrir a janela? Perguntou com os olhos fixos no retrovisor.
Eu consenti, garantindo que, naquele momento, durante a viagem, o carro era dele.
Rimos os dois.
Richard abriu a janela, esticou a mão direita para fora e começou a desenhar alguma coisa no ar. Ora parecia o voo de um pássaro. Ora, o movimento de um peixe nadando em algum lugar que só existia na imaginação dele.
Ficou alguns segundos assim, a mão solta contra o vento. Então me disse que aquele era o gesto preferido de Marialva quando viajavam.
Ela gostava de colocar a mão para fora da janela e brincar com o vento. Ou então tirava os sapatos e colocava os pés descalços sobre o painel do carro, como quem não estava indo a lugar nenhum ~ embora estivesse sempre indo. Todas as segundas-feiras, havia mais de quarenta anos, os dois faziam o mesmo trajeto para comprar as mercadorias do armazém. Segunda-feira era dia de compras. E toda terça-feira eles abriam com alguma novidade. Só que hoje, não!
Mas, pelo jeito como Richard contava, também era dia de passeio deles. Porque há casamentos que sobrevivem justamente dessas pequenas desobediências ao cotidiano.
Uma janela aberta. Uma mão brincando com o vento. Dois pés descalços sobre o painel. E alguém ao lado, rindo.
Quarenta anos fazendo compras. E, talvez sem perceber, quarenta anos inventando uma maneira de continuar juntos. Foi assim que comecei a conhecer Marialva.
Richard chegou ao brasil em 1970. O pai, militar da Real Força Armada Inglesa, havia se aposentado e decidiu que o filho único precisava de uma vida com mais sol. Escolheu a Bahia. Talvez não soubesse, naquele momento, que não estava apenas escolhendo um país para o filho. Estava escolhendo uma mulher, o único amor da vida de seu filho que não conheceu a mãe.
Richard não falava uma única palavra em português quando conheceu Marialva. Ela também não falava inglês. E talvez tenha sido justamente por isso que os dois tenham aprendido tão bem uma língua que não aparece nos dicionários.
Foram aprendendo. Convivendo. Ensinando. Rindo dos erros um do outro. E, entre uma palavra e outra, fizeram uma vida.
Quarenta e cinco anos. É muito tempo para duas pessoas aprenderem uma à outra. A gente aprende o jeito dos passos. O barulho da chave na porta. A maneira de colocar a xícara sobre a mesa. A hora em que o outro acorda. O café. A tapioca ~ de vez em quando tinha cuscuz, também. O silêncio, principalmente, o silêncio.
Richard fazia o café.
Marialva fazia a tapioca.
E talvez seja disso que uma vida seja feita. Não das grandes declarações. Mas dessas pequenas tarefas que ninguém escreve na certidão de casamento.
Um faz o café. O outro compra o pão. Um fecha a janela. O outro lembra de apagar a luz. Um escova os dentes. O outro coloca pasta na escova.
