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Carona de Palavras

Sistemas de crenças são complicados

o algoritmo vive tentando adivinhar o que quero assistir. de vez em quando acerta. quase sempre erra. os melhores filmes que encontrei, curiosamente, não me procuraram. apenas esperaram que eu passasse por eles.

Carona de Palavras

a gente costuma imaginar que escolhe um filme. tenho minhas dúvidas. depois de alguns anos, em O Recepcionista, comecei a desconfiar que certos filmes é que escolhem o momento de aparecer, quando a gente já é outra pessoa diante da mesma tela.

Sistemas de crenças são complicados

o tempo tem um jeito curioso de organizar os encontros. enquanto a gente corre para chegar a quase tudo, ele segue caminhando no próprio compasso, como se soubesse que certas descobertas não suportam a pressa.

há filmes que estreiam numa data. outros estreiam dentro da gente. O Recepcionista estava à minha espera havia seis anos. não foi o filme que chegou tarde. fui eu que, finalmente, cheguei na hora certa.

em determinado momento do filme, Bart [Tye Sheridan] diz ao investigador vivido por John Leguizamo: “sistemas de crença são complicados.“

Curioso… eu não fui assistir a O Recepcionista [2020] por causa de crença alguma. Fui porque ainda acredito que existem filmes que nos pegam pela mão e nos levam sem pedir licença. Alguns nos conquistam pela história. Outros, pelos personagens.Ddirigido por Michael Cristofer e estrelado por Tye Sheridan, Ana de Armas, Helen Hunt e John Leguizamo, Este pertence, com rara elegância, aos dois mundos.

Bart é daqueles personagens que continuam morando na cabeça da gente muito depois que os créditos terminam. Recepcionista de um hotel, ele observa as pessoas com uma atenção quase cirúrgica, como quem tenta decifrar um idioma que todos parecem falar desde o berço, menos ele. Sua solidão, suas manias e sua inteligência compõem um personagem que desperta algo maior do que curiosidade. Despertam empatia.

Algumas pessoas passam a vida inteira cercadas de gente e, ainda assim, parecem assistir ao mundo do lado de fora da janela. Bart me lembrou um pouco disso. E talvez seja por esse motivo que sua presença incomode tanto quanto enternece.

Confesso, porém, que cheguei ao filme por outro motivo. ou melhor, por outra pessoa: Ana de Armas.

Desde que a vi em Bata Antes de Entrar, ela conquistou um lugar definitivo entre as atrizes que acompanho com prazer e moram no meu coração. Não apenas pela beleza, que seria a primeira distração dos olhos, mas pela delicadeza com que empresta humanidade às mulheres que interpreta. há atores que interpretam personagens. ela parece escutá-las antes de lhes dar voz.

descobrir O recepcionista seis anos depois de seu lançamento foi como encontrar um livro esquecido numa estante empoeirada. Ele não estava atrasado. Eu é que ainda não tinha chegado ao encontro.

O filme não vive de explosões, perseguições ou reviravoltas fabricadas para prender a atenção de quem já desaprendeu a esperar. Sua força mora justamente na atmosfera, nos silêncios, nos olhares que parecem esconder capítulos inteiros jamais escritos. É um suspense que prefere caminhar a correr. E talvez seja exatamente por isso que nos alcance.

Vivemos um tempo curioso. Alguns filmes parecem disputar nossa atenção aos gritos, como vendedores em liquidação nas feiras livres. O Recepcionista faz o contrário. fala baixo. Tão baixo que obriga o espectador a silenciar um pouco por dentro. E esse talvez seja o maior elogio que um filme possa receber.

Não escrevo estas linhas como quem distribui estrelas ou coleciona defeitos para sustentar uma crítica. Escrevo como alguém que ainda gosta de montar sua própria sala escura, apagar as luzes da casa e acreditar que o cinema pode oferecer muito mais do que entretenimento. Às vezes, ele nos faz companhia. Às vezes, nos entrega um espelho. outras, deixa apenas uma pergunta rondando a cabeça, muito depois que a tela escurece.

E é nesses momentos que o cinema realiza seus pequenos milagres. Faz a gente perceber que certos filmes não envelhecem. Ficam apenas esperando, com a paciência de quem conhece o tempo, o instante exato em que finalmente encontram seu espectador.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
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