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Carona de Palavras

de vez em quando a gente escolhe um filme para passar o tempo e acaba sendo escolhido por ele. foi assim com Meu Nome é Agneta. entrei procurando entretenimento. saí carregando um velho chamado Einar e uma pergunta que ainda não consegui responder: em que momento a gente troca o verbo viver pelo verbo funcionar?

o despertar de Agneta e a lição de Einar

Carona de Palavras

há filmes que terminam quando sobem os créditos. Outros só começam depois que a tela escurece. Meu Nome é Agneta pertence à segunda categoria. A história ficou no streaming; a conversa veio comigo para casa.

Há um detalhe que transforma o final do filme em algo ainda mais bonito para quem conhece um pouco da história do ABBA.

A música não entra apenas porque é uma canção famosa. Ela carrega uma biografia.

A escolha de “The Winner Takes It All”, do ABBA, não parece estar ali por acaso. A canção nasceu cercada pelas lembranças do fim do casamento entre Björn Ulvaeus e Agnetha Fältskog. Embora Björn negue que a letra seja autobiográfica, é impossível separar a emoção da interpretação de Agnetha da história que os dois viveram. No filme, a música ganha um novo significado: lembra que a vida não é um jogo em que alguém leva tudo. Depois de tantas perdas, a maior vitória de Agneta não é sobre outra pessoa. É o reencontro consigo mesma.

acabou a Copa. Pelo menos para o Brasil. E eu, como quem volta para casa depois de um feriado barulhento, resolvi fazer o caminho de sempre: apagar a televisão esportiva e acender a Netflix.

Foi assim que encontrei o filme Meu Nome é Agneta [Je m’appelle Agneta], adaptação do romance da escritora, ilustradora e roteirista sueca Emma Hamberg. Achei que sairia do filme pensando na protagonista. Não saí.

Quem ficou sentado ao meu lado, mesmo depois dos créditos, foi Einar.

Agneta, aos 49 anos, é uma dessas pessoas que conhecemos sem precisar conhecer. Trabalha, cuida da casa, atende às necessidades da família, resolve problemas, paga contas, sorri quando é preciso. Funciona.

E talvez esse seja o verbo mais perigoso da vida adulta: funcionar.

Porque existe uma enorme diferença entre estar vivo e apenas cumprir expediente dentro da própria existência.

Em casa, ela fecha a porta do quarto como quem fecha a porta do único lugar onde ainda cabe um pedaço dela mesma. Navega pela internet, olha fotografias da França, pesquisa queijos, imagina ruas onde nunca pisou. Pequenos desejos clandestinos. Sonhos guardados na mesma gaveta onde muita gente esconde cartas antigas e receitas que nunca preparou.

Achei bonita essa delicadeza.

Quantos de nós também temos um quarto invisível? Um lugar onde escondemos vontades para que elas não atrapalhem a rotina.

mas foi Einar, um velho colecionador de cicatrizes, quem realmente me desmontou. A vida lhe deu motivos de sobra para endurecer. Ainda assim, todas as manhãs ele faz a mesma escolha: abraçar a alegria, alimentar a curiosidade e continuar se encantando com o mundo.

Agora, faça como ele propõe no filme. Feche os olhos por um instante e imagine que um grupo de amigos percebe que um deles já não sorri com os olhos. Ele continua sentado à mesa das conversas, aparece em todas as fotografias, ri na hora certa, mas alguma coisa, lá dentro, foi embora sem fazer barulho

Os amigos percebem que Einar está desaparecendo aos poucos. E, em vez de aceitarem esse sumiço silencioso, recorrem a um gesto que hoje parece pertencer a outro tempo: publicam um anúncio num jornal da Suécia procurando uma au pair que aceite cruzar a Europa para cuidar de uma suposta criança, numa pequena cidade do interior da França. Só mais tarde entendemos que infância e velhice, às vezes, ocupam o mesmo corpo.

Achei essa ideia de uma beleza quase infantil. E justamente por isso, profundamente verdadeira.

Às vezes, quem nos ama enxerga nosso desaparecimento antes de nós mesmos.

Essa espécie de menino disfarçado de velho, Einar carrega dores, cicatrizes e uma solidão que bastariam para justificar qualquer amargura. Ainda assim, faz uma escolha quase revolucionária: escolhe viver.

Há uma frase dele que ficou comigo como quem esquece um bilhete dentro do bolso da camisa: “Quando você pensa que chegou ao fim, pode ser o começo de algo muito melhor.”

Bonito, mas o filme não para aí. Ele apresenta uma ideia ainda mais provocadora: é preciso apagar a tristeza com a alegria.

Não diz para esperar a tristeza passar. Não promete milagres nem receitas de felicidade instantânea.

Fala de decisão. Alegria não é um prêmio entregue aos sortudos. É uma prática cotidiana. Uma espécie de musculatura da alma.

Acender uma luz. Abrir a janela. Colocar uma música. Telefonar para um amigo.

Preparar um café caprichado numa terça-feira qualquer.

São gestos mínimos. Mas, curiosamente, a vida costuma voltar justamente por essas frestas.

Foi então que percebi que Einar não era um herói. Era um homem cheio de buracos.

E talvez sejam justamente as pessoas rachadas que deixam a luz passar.

Existe uma expressão que gosto muito: libido pela vida.

Não falo da libido sexual [embora ela também faça parte da existência]. Falo da fome de descobrir, da curiosidade infantil, do espanto diante das pequenas coisas.

Da vontade de aprender uma receita nova. De mudar o caminho de volta para casa. De comprar flores sem haver visita. De viajar apenas porque existe um mapa.

Essa libido costuma desaparecer sem fazer barulho.

Primeiro abandonamos um hobby. Depois adiamos uma viagem. Mais tarde desistimos daquele curso.

Até que um dia continuamos vivendo… mas já não participamos da própria vida.

Apenas respondemos mensagens, pagamos boletos e esperamos a sexta-feira.

O filme fala justamente desse desaparecimento silencioso da identidade.

Ele não acontece numa segunda-feira às oito da manhã. Vai acontecendo aos poucos. Quando deixamos de sonhar. Quando acreditamos que cuidar de nós é egoísmo. Quando confundimos utilidade com existência.

Talvez por isso tantas mulheres se reconheçam em Agneta.

Durante muito tempo lhes ensinaram que seu valor estava em servir, cuidar, organizar, sustentar emocionalmente os outros.

Quase ninguém perguntou do que elas gostavam. Quase ninguém ensinou que também tinham direito aos próprios desejos.

Existe uma cena belíssima. Agneta para diante do espelho. Não procura defeitos. Não mede rugas. Não compara o corpo ao de ninguém. Ela simplesmente se vê.

Pela primeira vez, parece compreender que existe para além dos papéis que desempenha.

É uma cena silenciosa. E justamente por isso faz tanto barulho. Mais tarde ela troca o casaco escuro por um vestido lilás. Pode parecer apenas uma troca de roupa.

Não é.

Às vezes a liberdade começa no guarda-roupa. Às vezes começa num corte de cabelo. Noutras, apenas na coragem de dizer “não”. Mudanças importantes quase nunca chegam fazendo discurso.

Entram pela porta dos fundos. Disfarçadas de vestido lilás.

Enquanto assistia ao filme, fiquei pensando que talvez todos nós tenhamos nossos casacos escuros.

São as versões de nós mesmos que usamos por costume. Por medo. Ou para não incomodar ninguém.

No fim, percebi que Meu Nome é Agneta fala menos sobre recomeços e mais sobre permissão.

Permissão para existir sem pedir desculpas. Permissão para mudar de ideia. Permissão para envelhecer sem abandonar a curiosidade. Permissão para voltar a ser protagonista da própria história.

E, curiosamente, quem desperta Agneta não é alguém perfeito.

É Einar.

Porque pessoas feridas também despertam pessoas.

Aliás, talvez sejam justamente elas.

Saí do filme com uma pergunta bem menos confortável do que “quem sou eu?”.

Fiquei pensando em outra: quem estou deixando de ser enquanto finjo que está tudo bem?

Talvez a gente também viva num quarto fechado, escondendo os queijos e os sonhos, esperando que alguém publique um anúncio para nos encontrar.

Mas talvez esse anúncio nunca seja publicado.

Talvez caiba a nós abrir a porta.

E, quem sabe, amanhã de manhã, vestir nosso pequeno vestido lilás [seja ele qual for] e sair por aí espalhando vida.

Mesmo carregando todos os nossos buracos.

Porque, no fim das contas, é exatamente por eles que a luz entra.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
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