a crônica de hoje precisa retroceder uns 40 anos ~ não por saudade, mas porque certas verdades só clareiam no retrovisor. e o cenário, obrigatoriamente, é o bar do Jorjão, que ficava na av. professor Celestino Bourroul, no bairro do Limão, ali do lado do prédio do Estadão [onde as notícias tinham o peso do papel antes de terem a pressa do pixel].
Mas calma ~ a estória começa no presente.
Como é sabido por muitos [não todos, rs!], ando fantasiado de “Frei.eUber“, fazendo pesquisa de campo para escrever um livro sobre a vida de um motorista de aplicativo. Pesquisa séria, dessas que a gente faz com volante na mão, café morno no porta-copos e um olho no mapa, outro na alma da cidade.
Naquele 15.mar.026, eu voltava da Vila Mariana. Passava das 18h30 quando, mais ou menos sobre a Ponte das Bandeiras, o aplicativo apitou. Um passageiro chamado Rodrigo, destino Lauzane, zona Norte de Sampa.
Confesso: meu plano já era ir para casa. Mas motorista de aplicativo tem dessas virtudes repentinas ~ ou fraquezas, depende do ponto de vista. Aceitei!
Foram mais de 4 km pela av. Olavo Fontoura, a digníssimos 40 km por hora. Quem conhece aquela avenida nesse horário sabe: não é trânsito, é um desfile lento de paciência, performando ao lado do Sambodromo, até chegar à av. Brás Leme.
Pisca-alerta piscando, encostei no meio-fio. Abri a porta do carro… e entrou Emily [@emm.something] ~ naquele instante eu ainda não sabia, mas logo ficaria claro: uma estudante de marketing, dessas curiosas pelo mundo, ávidas por descobrir novas possibilidades no vasto e inquieto mercado da publicidade.
Não Rodrigo.
Nada que assuste um motorista em São Paulo. Por aqui, é normal alguém pedir a corrida pra outra pessoa. Ou, às vezes, a mesma pessoa usar o perfil alheio. A cidade é cheia desses esquemas, dessas gambiarras digitais — e assim as mulheres vão se protegendo de assédio.
Mas nessa noite teve um toque de delicadeza: o tal Rodrigo apareceu na calçada só pra se despedir enquanto Emily entrava no carro. Me desejou boa noite.
— Boa noite! — respondi, enquanto confirmava o endereço no celular.
— Boa noite! — disse ela, ajustando o cinto de segurança.
Desliguei o pisca-alerta, dei seta e comecei a operação quase filosófica de sair da terceira faixa para a primeira, para subir a rua Ouro Grosso, sentido à Casa Verde, bairro visinho de Lauzane.
Primeira etapa: sair do acostamento improvisado ~ vencida.
Segunda etapa: cruzar a faixa azul dos motocas ~ missão praticamente espiritual.
Dois motociclistas e três carros passaram por mim com aquela elegância urbana que consiste em fingir que o pisca do outro é decoração.
Eu ali, seta ligada, braço abanando pela janela como quem pede carona dentro do próprio carro.
Só consegui chegar ao cruzamento já nos 45 do segundo tempo.
E foi então que aconteceu.
Mais à frente, um dos carros que me impedira de avançar simplesmente cortou a minha frente. Sem seta. Sem cerimônia. Sem sequer aquele olhar constrangido de quem sabe que fez besteira.
Eu deixei, claro.
— Viu isso? — disse Emily, ligada no trânsito e indignada.
— Vi ~ respondi — e deixei.
Silêncio de dois segundos. Aquele silêncio em que o trânsito pensa pela gente.
— Em São Paulo ~ falei — dirigir também é um exercício de desapego.
Emily riu.
E foi nesse instante que a memória fez o que memórias adoram fazer: atravessou o tempo sem dar seta.
De repente eu estava 40 anos atrás, minha filha já tinha um ano de vida, sentado no bar do Jorjão. Quatro amigos à mesa ~ dois jornalistas, dois da turma da propaganda e marketing ~ cerveja suando no copo e um guardanapo servindo de bloco de criação.
O desafio era simples: inventar uma campanha publicitária, atribuição dada aos dois jornalistas e os marqueteiros iriam julgar.
E então surgiu um título que nunca foi ao ar, mas poderia perfeitamente ter sido:
“eu dou! você dá?”
— Como assim? ~ perguntou Emily, estudiosa de marketing, curiosa.
Esta é uma peça publicitária — ou talvez uma intervenção poética — que funciona como um ‘koan’ moderno.
A beleza está no vazio deixado pela resposta. O outdoor não diz “DÊ SETA“. Ele pergunta: “VOCÊ DÁ?“. E, ao não responder, obriga o motorista a preencher a lacuna.
A Mecânica da coisa:
Afirmação [“EU DOU!“]: Cria uma voz autoritária e confiante. O outdoor “fala” em primeira pessoa, personificando talvez um motorista ideal, ou a própria estrada.
A Pergunta [“VOCÊ DÁ?“]: Quebra a quarta parede. Olha diretamente para o indivíduo no carro. Não é uma ordem [“Dê seta”], é uma provocação existencial.
O Trânsito como Metáfora: Num mundo de buzinas e pressa, “dar” [a seta, a vez, o espaço] é visto não como regra, mas como “ato heroico”. A peça joga com essa inversão: a cortesia virou exceção.
E é exatamente aí que reside a astúcia da ideia. O subconsciente não processa “dê seta” como uma instrução de autoescola. Ele processa a culpa ou a afirmação.
O motorista que não dá seta, ao ler “EU DOU!”, sente-se egoísta. O que dá, ao ler “VOCÊ DÁ?”, sente-se parte de um pacto silencioso. A mensagem não está no asfalto, está na consciência de quem passa entre os dois outdoors.
Como a Emily observou: simples demais para ser verdade [parece ingenuidade achar que um outdoor muda o trânsito], ou verdadeiro demais para ser simples (porque toca no fundo da questão: dirigir é uma ação coletiva que exige comunicação].
É uma ideia que transforma uma placa de trânsito invisível [a seta] em uma questão filosófica visível.
Mas quem dirige entende:
dar seta.
dar passagem.
dar espaço.
Pequenos gestos heroicos na selva do asfalto.
Emily achou o máximo.
Mas também observou algo curioso:
— Naquela época eu nem tinha nascido.
Balancei a cabeça.
— E hoje ~ disse ela — propaganda não desafia mais jornalista.
Seguimos viagem.
O trânsito continuava o mesmo. Os carros, os motocas, as setas esquecidas.
Mas fiquei pensando que talvez dirigir em São Paulo seja justamente isso: um grande outdoor invisível perguntando todos os dias, a cada esquina, a cada mudança de faixa:
eu dou!
você dá?
