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Carona de Palavras

entre mortos e machucados, sobraram muitos riscos e alguma fé nos vivos

a força de um currículo bem feito. segundo as estatísticas oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o mercado de trabalho brasileiro, no início de 2026, apresenta alta empregabilidade e queda no desemprego ~ os menores níveis desde 2012. há muitas vagas abertas. a procura por bons profissionais é ainda maior.

Carona de Palavras

em um país que celebra índices históricos de empregabilidade divulgados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a trajetória de Natali revela o outro lado das estatísticas ~ o de quem trabalha, resiste e ainda assim sonha em, finalmente, exercer a profissão para a qual se formou.

entre mortos e machucados, sobraram muitos riscos e alguma fé nos vivos

para você mergulhar ~ disse, entregando o livro como quem oferece café quente em tarde fria. ~ depois, se gostar, quem sabe me conta histórias dos mortos? eu publico. prometo trocar o medo por poesia.

ela entrou no carro, rádio ligado e eu ainda ajeitava o cinto. A voz do locutor vinha firme, celebrando os números do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística como quem anuncia colheita farta.  …”menores níveis de desemprego desde 2012“, repetia, enquanto o carro cortava a cidade. Gráficos subiam, manchetes sorriam.

E entre tantos números animadores, há gente que acorda cedo, trabalha o dia inteiro e, mesmo assim, sente que o salário não conversa com o esforço. Entre essas pessoas, eu conheci Natali.

Natali revirou os olhos com a precisão de quem tem prática. A notícia ainda ecoava, e antes que eu perguntasse se podia deixar o rádio ligado — [cortesia básica de motorista de aplicativo] — ela já se fez comentarista.

— Querido, se depender do IBGE, eu tô empregada há cinco anos. Mas o boleto da SABESP ainda não entendeu que, segundo as estatísticas, eu deveria estar nadando em dinheiro.

— Talvez seja problema de comunicação entre os gráficos e a conta de água ~ sugeri. ~ já tentou apresentar o relatório do IBGE na fatura?

Ela riu daquele jeito que mistura cansaço e esperança ~ uma gargalhada que sabe das próprias contas.

— Então quer dizer que o Brasil está bombando? ~ ela perguntou, ajeitando o cabelo com a naturalidade de quem já encarou tempestades piores que segunda-feira.

— Segundo o IBGE, sim ~ respondi. ~ mas o IBGE não paga boleto.

— Nem meus boletos, nem os de ninguém que eu conheço ~ ela completou. ~ deve ser por isso que eu nunca encontro essas pessoas dos gráficos sorridentes no ponto de ônibus.

— Elas devem andar de helicóptero ~ sugeri. ~ gráfico que sobe não desce pro asfalto.

Natali trabalha com tanatopraxia [conservação] e necromaquiagem [estética]. retarda a decomposição, devolve dignidade ao rosto de quem partiu. faz do silêncio um ofício.

— Eu preparo despedidas ~ disse ela, com a serenidade de quem entende o peso das mãos.

— E como é que alguém entra nessa área? ~ perguntei. ~ tem vaga no jovem aprendiz para defunto?

— Você não imagina a concorrência ~ ela respondeu, séria. ~ tem gente que morre pra entrar. Outros, infelizmente, entram e não saem mais. estabilidade, sabe como é.

Confessei a ela que lidar com os mortos me assusta na vida real.

— Mas no plano etéreo, você acha bonito, né? ~ ela cutucou.

— No plano etéreo, eu romantizo tudo ~ admiti. [é meu defeito mais literário.]

— Pois no plano concreto ~ ela disse, ~ os mortos são mais educados que os vivos. não reclamam do salário, não fazem greve, não pedem aumento. Só que o problema é justamente esse: eles também não consomem. E a economia precisa de gente viva gastando.

Mas o desejo dela é voltar para a enfermagem. Terminou o curso, mas não conseguiu estágio. A vida empurrou para a área de limpeza, primeiro numa funerária. Depois, degrau por degrau, chegou ao cargo de chefe nos cuidados com os falecidos.

— Isso já cansou ~ confessou. ~ Agora quero abraçar a carreira em que me formei. Cuidar dos vivos antes que eles virem estatística.

— Então você quer trocar os mortos pelos vivos? ~ perguntei. ~ tá preparada para a falta de educação?

— Os vivos reclamam mais ~ ela admitiu. ~ mas também agradecem. Já os mortos… são ingratos, sabia? Nunca um agradeceu meu trabalho.

— Falta de consideração ~ concordei. ~ você dando o melhor, retocando a maquiagem, e eles nem um obrigado.

— Pior que um dia um agradeceu ~ ela contou, com um sorriso discreto. ~ mas aí a família ouviu, quase infartou, e eu quase perdi o emprego. Morto que agradece dá problema.

— Ou seja ~ eu disse, ~ você prefere os vivos porque eles reclamam, mas ao menos não falam quando deviam estar calados.

— Exatamente. E também porque enfermeira ganha melhor.

— Aí você quebra a poesia com realismo ~ reclamei.

— Poesia não paga boleto, Frei. você mesmo disse.

Houve uma pausa. O rádio ainda celebrava os números do emprego.

— Mas deixa eu te perguntar uma coisa ~ ela continuou. — se o país tá com tantas vagas, por que ninguém me chama? Meu currículo é bom, tenho experiência com gestão de pessoal [mesmo que os funcionários não reclamem], tenho curso superior completo…

— Talvez o problema seja a área de experiência ~ sugeri. ~ quando o RH vê “tanatopraxia”, deve pensar que você vai deixar os pacientes mais quietos do que deviam.

— Pode ser ~ ela riu. ~ ou então pensam que eu tenho contatos sobrenaturais. “Essa aí deve ter moral com quem já foi”. E isso assusta.

— Mas também podia ser vantagem ~ argumentei. “Precisa-se de enfermeira com experiência em silêncio absoluto e clientes que não dão trabalho”.

— Ia adorar essa vaga ~ ela suspirou. “Clientes que não reclamam da comida, não pedem cobertor, não chamam a família de madrugada”. Putz, ia ser a realização profissional.

Resolvi presenteá-la com meu primeiro livro, Endora. Edição de 1994, páginas com aquele cheiro de papel que já viveu.

— Para você mergulhar ~ disse, entregando o livro como quem oferece café quente em tarde fria. ~ depois, se gostar, quem sabe me conta histórias dos mortos? Eu publico. Prometo trocar o medo por poesia.

Ela segurou o livro como quem segura um recém-nascido ~ com cuidado e alguma expectativa.

— Espero que Endora toque seu coração ~ falei.

— Se tocar, eu te conto o que os mortos me ensinam sobre os vivos ~ respondeu ela. ~ mas já vou dar um spoiler: os mortos não se importam com currículo. os vivos, sim. e isso diz muito sobre quem ainda está aqui.

— Os mortos não precisam de emprego ~ ponderei.

— Justamente ~ ela disse. ~ Por isso são mais sábios. A sabedoria vem quando a gente para de se preocupar com a carteira assinada.

— Você vai largar tudo pra virar filósofa?

— Não posso ~ ela riu. ~ Filósofo também precisa de currículo hoje em dia. E o mercado tá difícil até para pensadores.

E ali, entre estatísticas otimistas e sonhos remendados, percebi: currículo bem feito é importante, sim. Mas há forças que não cabem no papel ~ a coragem de recomeçar, por exemplo.

Essa não tem gráfico que meça.

— Então ~ eu disse, parando o carro. ~ boa sorte na busca. Se precisar de referência, pode usar meu nome.

— Você vai dizer que sou uma ótima profissional?

— Vou dizer que você é a única pessoa que conheço que faz os outros ficarem quietos e bonitos ao mesmo tempo. Isso é raro.

Ela desceu rindo.

— Se não der certo na enfermagem, tento carreira política. Com esse talento pra silenciar os outros, vou longe.

e eu sigo ~ café sem açúcar ao amanhecer, ComCervejas ao entardecer, taninos à noite.
Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
LuzeAzvdo-Frei_e-uBer
Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus

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