um cliente solicitou um carro para ir de casa ao shopping. Eu aceitei a corrida ~ nada além do roteiro previsível da cidade: sair, chegar, consumir, voltar.
Durante o trajeto, porém, algo saiu do trilho do automático. A mulher que o acompanhava teve sua atenção capturada por um cartaz discreto, quase tímido, mas insistente, fixado no encosto do banco dianteiro ~ um aviso sobre a produção de um livro, acompanhado do logotipo da Desembréia de Deus.
O silêncio dentro do carro mudou de textura. Já não era apenas a ausência de ruído; era uma atenção suspensa, um ponto de interrogação pairando entre os bancos. Ela não disse nada a princípio ~ apenas estudou aquelas letras como quem decifra um código deixado na mesinha de cabeceira.
O silêncio dentro do carro mudou de textura. Já não era apenas a ausência de ruído; era uma atenção suspensa, um ponto de interrogação pairando entre os bancos. Ela não disse nada a princípio ~ apenas estudou aquelas letras como quem decifra um código deixado na mesinha de cabeceira.
O carro seguiu, mas o trajeto original ~ aquele traçado pelo GPS ~ já não servia mais. algo havia desviado o caminho. agora íamos por uma rota paralela, feita de curiosidade e daquele espanto raro que nasce quando a bola bate na trave, o juiz apita o fim, e o destino ~ por um breve segundo ~ resolve revelar que sempre houve outras possibilidades de percurso.
A mulher no carro sorriu, surpresa ~ desses sorrisos que aparecem quando a vida resolve piscar o olho sem aviso. comentou mais para si do que para mim:
— nossa, que coincidência. Eu já seguia você no Instagram e nem sabia quem era. Então, você é o Frei eUber?
Olhei pelo retrovisor, com um sorriso sereno ~ desses que não brigam com o trânsito nem pedem passagem.
— sim, sou eu! ~ respondi, com a naturalidade de quem não se apresenta, apenas segue existindo. ~ mas eu também te sigo?
Ela riu, deixando escapar um “não” leve, quase um pedido de desculpa pela assimetria digital.
— não! mas agora vou seguir. é só me mandar um “oi” e me contar como você me achou?
Fiz uma pausa breve, dessas que cabem num semáforo fechado e numa vida inteira de observação. Organizei o pensamento enquanto esperava o sinal abrir.
— na verdade… foi um vídeo. recentemente você publicou aquele sobre a ginasta Anna Goudareva. eu amei a história. fiquei pensando no poder que as mulheres têm ~ e que nem sempre é valorizado.
Acenei com a cabeça. O sinal verde iluminou o rosto no espelho, como se desse aval à conversa [ ou à confissão ].
— A intenção foi justamente essa ~ disse, baixando um pouco a voz, como quem fala baixo para não acordar a cidade. ~ dar um choque na realidade. mostrar que, com determinação, todos ~ não só as mulheres ~ podem reescrever uma história de sucesso.
Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes, os olhos perdidos na paisagem que escorria pela janela. Corrida curta, o shopping surgia ao longe ~ grande, aceso, repleto de vitrines oferecendo felicidade em suaves prestações. Ainda assim, a sensação era de que o caminho tinha ficado menor ~ ou mais fundo.
— Pois é ~ disse enfim, quase em confidência. ~ às vezes a gente pensa que está só indo ao shopping, e a vida resolve sentar no banco de trás e puxar conversa.
Estacionei em frente à entrada, lancei um último olhar pelo retrovisor e arrematei, com um brilho tranquilo no olhar:
— eu não boto muita fé em coincidências… mas que elas dão carona pra gente, dão. Boa tarde ~ e obrigado pela companhia.
Ele desceram ainda sorrindo. Já não era apenas uma passageira, nem eu somente um motorista. Eram duas narrativas que, por um breve intervalo, cruzaram a mesma rota, respiraram o mesmo tempo, aceitaram o mesmo acaso.
[e talvez seja só isso a vida ~ um percurso aparentemente banal, onde a resposta aparece justo quando a gente achava que só precisava chegar].
