uma mala cheia de ferramentas e muitas histórias para contar ~ assim como aquela atriz, Lilia Cabral, na novela Fina Estampa, vivendo o Pereirão. Juliet sustenta seus filhos como uma mamãe de aluguel ~ num mundo onde os homens não conseguem atuar, seja pela ineficácia, seja pela insegurança que ainda ronda o imaginário doméstico. ela visita casas, entra em salas, cozinhas, banheiros… alheios e resolve problemas onde a vida emperra.
De encanamento entupido, chuveiro queimado, pinturas, até jardinagem. ela é a mulher que falta em casa e que homem nenhum substitui.
Me conta que, no começo, sentia até dores de barriga e um medo danado de não dar conta dos trabalhos. Mas lembrava, nesses momentos, que o marido, quando a deixou, deixou também muita coisa por arrumar ~ além da louça suja na pia e das roupas esperando na máquina [ boletos que ainda teimam em chegar ].
Juliet nasceu no Uruguai, em 1969, num dia frio de agosto. Ainda durante sua infância, em 1979, a família transfere-se para o Rio de Janeiro e, depois, para São Paulo, em 1980. Dez anos mais tarde, conhece o marido ~ um amor à primeira vista que não suportou, com o tempo, o peso das brigas e dos dias.
Fã do cantor, músico e compositor Taiguara Chalar da Silva ~ seu conterrâneo ~, ela declama, em voz baixa e certeira, um trecho de Viagem, canção que a fez assumir as rédeas da própria vida:
Vai, recupera a paz perdida e as ilusões
Não espera vir a vida às tuas mãos
Faz em fera a flor ferida e vai lutar
Pro amor voltar…
Pergunta se conheço o cantor e a obra. Digo que sim: fizeram parte da minha travessia nos anos 80. Só depois de sua morte, em 96, soube da origem uruguaia.
Inspirada na música ela foi. Fez-se fera e flor. Transformou um corpo de mulher em estrada e sol ~ em ferramenta e ofício.
Seus três filhos ~ à época da separação, Fábio, com 16; Gustavo, 14; e Rita, apenas 8 anos ~ torceram o nariz para a ideia no começo. Mas bastou o telefone não parar de tocar, a agenda viver cheia e a mesada cair certinha para que mudassem de opinião. Rápido. Do jeito que a vida costuma ensinar.
Fábio seguiu firme pela trilha acadêmica da universidade, é professor da USP. Gustavo encarou a Fiorino ~ aquela mesma que hoje a deixou na mão. Rita assumiu o cuidado da agenda enquanto se prepara para iniciar, em março de 2026, o mestrado em engenharia civil.
Aposentadoria? Talvez. A esposa do filho mais velho está grávida, com previsão para agosto de 26. E, se o nascimento acontecer no dia 22… aí sim, a vovó se aposenta.
Hoje, vinte anos depois, a futura avó, tem filho ‘dotô‘ e a certeza tranquila de que faria tudo igual, sem corrigir vírgula nem destino. Por isso, aos quase 60 [teima em não revelar a idade], ainda continua atendendo só os clientes vips e precisa da minha ajuda com a Desembréia de Deus.
Disse que, se estivesse no meu lugar, em vez de escrever um livro, faria uma minissérie ~ ao estilo Pecado Capital, ~em que o ator Francisco Cuoco, o Carlão, encontra uma mala cheia de dinheiro. Mas faz questão de não esquecer a dela na ‘Desembréia de Deus’ e solta: [ até que o senhor, Frei, merece esse dízimo. mas a minha mala ~ a Taiguara ~ é minha salvação, não essa sua igreja sobre rodas ].
E assim a cena se fecha: uma mala que não carrega dinheiro, mas sustento; não guarda culpa, mas dignidade. No fim, enquanto o mundo insiste em medir sucesso em cifras e promessas ocas, ela segue abrindo a mala no chão da vida ~ arrancando sorrisos tortos do absurdo cotidiano e nos fazendo pensar se não estamos todos procurando a mala errada para chamar de salvação.
