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Carona de Palavras

Uma Mulher que resolve e a Taiguara que não é dízimo

ela segue ~ de porta em porta, de reparo em reparo ~ levando consigo uma igreja portátil feita de metal, calo e vontade. Enquanto o mundo se ajoelha por salvações distantes, ela sorri de canto, puxa a chave de fenda e vai gravando seu credo em parafusos firmes e canos que voltam a correr. Escreve, sem alarde, um evangelho íntimo: aquele que confia mais no peso honesto da ferramenta do que na leveza incerta da oração ~ e assim, conserto após conserto, vai transformando o mundo inteiro num canto seu.

Carona de Palavras

ela chega com a mala na mão ~ não uma mala qualquer, mas a Taiguara* ~ e resolve. onde a pia entope, onde a tomada não tem mais vida, onde a cerca cedeu. Juliet não pergunta “quem fez?”, apenas pergunta “onde está?”. e começa a trabalhar. os homens da rua olham de soslaio, às vezes com um respeito que se disfarça de curiosidade, às vezes com um desconforto que se esconde atrás do jornal. mas ela segue, porque aprendeu cedo que o mundo está cheio de coisas por arrumar [e a maior parte delas não são canos].

Uma Mulher que resolve e a Taiguara que não é dízimo

* fã do cantor Taiguara ~ Taiguara Chalar da Silva foi um cantor, compositor e instrumentista radicado brasileiro. Taiguara nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 1945. O próprio nome já carregava o significado que ele defendia em suas canções, como “Que as Crianças Cantem Livres”, sendo um chamado por direitos humanos e um mundo sem discriminação.

uma mala cheia de ferramentas e muitas histórias para contar ~ assim como aquela atriz, Lilia Cabral, na novela Fina Estampa, vivendo o Pereirão. Juliet sustenta seus filhos como uma mamãe de aluguel ~ num mundo onde os homens não conseguem atuar, seja pela ineficácia, seja pela insegurança que ainda ronda o imaginário doméstico. ela visita casas, entra em salas, cozinhas, banheiros… alheios e resolve problemas onde a vida emperra.

De encanamento entupido, chuveiro queimado, pinturas, até jardinagem. ela é a mulher que falta em casa e que homem nenhum substitui.

Me conta que, no começo, sentia até dores de barriga e um medo danado de não dar conta dos trabalhos. Mas lembrava, nesses momentos, que o marido, quando a deixou, deixou também muita coisa por arrumar ~ além da louça suja na pia e das roupas esperando na máquina [ boletos que ainda teimam em chegar ].

Juliet nasceu no Uruguai, em 1969, num dia frio de agosto. Ainda durante sua infância, em 1979, a família transfere-se para o Rio de Janeiro e, depois, para São Paulo, em 1980. Dez anos mais tarde, conhece o marido ~ um amor à primeira vista que não suportou, com o tempo, o peso das brigas e dos dias.

Fã do cantor, músico e compositor Taiguara Chalar da Silva ~ seu conterrâneo ~, ela declama, em voz baixa e certeira, um trecho de Viagem, canção que a fez assumir as rédeas da própria vida:

Vai, recupera a paz perdida e as ilusões
Não espera vir a vida às tuas mãos
Faz em fera a flor ferida e vai lutar
Pro amor voltar…

Pergunta se conheço o cantor e a obra. Digo que sim: fizeram parte da minha travessia nos anos 80. Só depois de sua morte, em 96, soube da origem uruguaia.

Inspirada na música ela foi. Fez-se fera e flor. Transformou um corpo de mulher em estrada e sol ~ em ferramenta e ofício.

Seus três filhos ~ à época da separação, Fábio, com 16; Gustavo, 14; e Rita, apenas 8 anos ~ torceram o nariz para a ideia no começo. Mas bastou o telefone não parar de tocar, a agenda viver cheia e a mesada cair certinha para que mudassem de opinião. Rápido. Do jeito que a vida costuma ensinar.

Fábio seguiu firme pela trilha acadêmica da universidade, é professor da USP. Gustavo encarou a Fiorino ~ aquela mesma que hoje a deixou na mão. Rita assumiu o cuidado da agenda enquanto se prepara para iniciar, em março de 2026, o mestrado em engenharia civil.

Aposentadoria? Talvez. A esposa do filho mais velho está grávida, com previsão para agosto de 26. E, se o nascimento acontecer no dia 22… aí sim, a vovó se aposenta.

Hoje, vinte anos depois, a futura avó, tem filho ‘dotô‘ e a certeza tranquila de que faria tudo igual, sem corrigir vírgula nem destino. Por isso, aos quase 60 [teima em não revelar a idade], ainda continua atendendo só os clientes vips e precisa da minha ajuda com a Desembréia de Deus.

Disse que, se estivesse no meu lugar, em vez de escrever um livro, faria uma minissérie ~ ao estilo Pecado Capital, ~em que o ator Francisco Cuoco, o Carlão, encontra uma mala cheia de dinheiro. Mas faz questão de não esquecer a dela na ‘Desembréia de Deus’ e solta: [ até que o senhor, Frei, merece esse dízimo. mas a minha mala ~ a Taiguara ~ é minha salvação, não essa sua igreja sobre rodas ].

E assim a cena se fecha: uma mala que não carrega dinheiro, mas sustento; não guarda culpa, mas dignidade. No fim, enquanto o mundo insiste em medir sucesso em cifras e promessas ocas, ela segue abrindo a mala no chão da vida ~ arrancando sorrisos tortos do absurdo cotidiano e nos fazendo pensar se não estamos todos procurando a mala errada para chamar de salvação.

Frei e-uBer, motorista de histórias e espectador de vidas, assina esta crônica entre um congestionamento e uma esperança.
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Em cada corrida uma Estória. Em cada Estória: Fé que transforma!
Frei e-Uber | Desembréia de Deus

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Frei e-Uber

A cidade grande não recebeu o jovem sonhador com braços abertos. Sem dinheiro e sem conhecer ninguém, dormiu em rodoviárias e passou fome antes de encontrar um emprego lavando pratos em uma lanchonete. Subiu para chapeiro e depois subchefe, trabalhando exaustivamente, agarrando cada oportunidade, cada centavo. Mas a promessa de voltar para buscar sua família parecia sempre mais distante.

Foto de Matheus Natan: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoas-cruzando-a-rua-1813406/